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Artigos

Nos passos da FEB: do embarque no Rio ao batismo de fogo na Itália
(Publicado na Gazeta do Povo, HojePR, Jornal de Brasília, etc)
Jacir Venturi

Deixando Pisa para trás, conhecemos San Rossore, centro de acampamento e treinamento intensivo dos pracinhas, e adentramos o deslumbrante Vale do Serchio — uma região marcada pela história. Aqui, tivemos a oportunidade de explorar as impressionantes casamatas alemãs, feitas de concreto ou esculpidas nas encostas das montanhas.
Somos uma comitiva de nove familiares refazendo o percurso de nossos pracinhas na Segunda Guerra Mundial. Nosso pai foi um deles. Cruzou o Atlântico ao lado de outros 25.334 brasileiros, integrando a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que lutou não apenas pelo Brasil, mas também pela liberdade e pela humanidade. Foi uma epopeia em solo italiano, escrita com suor, sangue, sacrifício e coragem.


Em oito dias, percorremos 2.140 quilômetros em uma van conduzida por Mario Pereira, filho de um expedicionário e morador de Pistoia. Nossa jornada começou em Pisa e nos levou aos principais monumentos erguidos em homenagem aos pracinhas. Visitamos todas as cidades por onde nossos heróis combateram e prestamos homenagem nos quatro principais cemitérios militares da campanha: o americano, o alemão, o sul-africano e o de Pistoia.


Neste último repousaram os soldados brasileiros até 1960, quando os restos mortais de 467 combatentes foram transladados para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, conhecido como Monumento aos Pracinhas, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Nossa viagem foi motivada pelo turismo histórico, pela homenagem aos nossos combatentes e pela reconexão familiar.


Em 16 de julho de 1944, após 14 dias de travessia, o navio que transportava o 1º escalão da FEB adentrou a baía de Nápoles. O impacto visual era devastador: casas e prédios reduzidos a escombros, uma população faminta e ferida, e o cenário típico de uma praça de guerra — soldados circulando entre tanques e navios, alguns operantes, outros em ruínas. Foi nesse ambiente que desembarcaram os 5.075 homens do primeiro contingente brasileiro, em sua maioria jovens soldados.


Nápoles já se encontrava sob controle dos Aliados, mas permanecia semidestruída pelos intensos bombardeios dirigidos às forças alemãs e aos remanescentes do regime de Mussolini, em retirada desde a perda da Sicília. A cidade simbolizava o destino cruel que se abatia sobre tantas localidades italianas naquele momento em que a superioridade militar dos Aliados começava a se consolidar.


Um ano antes, em julho de 1943, Benito Mussolini havia sido deposto e preso, encerrando mais de duas décadas de governo fascista. Formou-se então um novo gabinete, chefiado pelo marechal Pietro Badoglio, que estrategicamente buscou preservar uma aparência de continuidade. Ainda assim, a Itália encontrava-se exausta e fragilizada pelos reveses de uma guerra para a qual entrara antes de estar devidamente preparada, como advertiram, sem sucesso, muitos generais italianos.


Pouco depois, em setembro de 1943, Badoglio anunciou medidas decisivas: o armistício com os Aliados e a ordem para proteger os principais ativos militares, especialmente a frota naval, para evitar que caíssem nas mãos dos alemães e dos fascistas remanescentes, que logo avançariam sobre Roma. Esse momento marcou o início da guerra civil italiana, que passaria a dividir o país entre o sul, apoiado pelos Aliados, e o norte, sob ocupação alemã.


Naquele mesmo mês, no auge da turbulência que sacudia a Segunda Guerra Mundial, Mussolini foi resgatado de seu cativeiro secreto, no alto do maciço de Gran Sasso, numa operação de contornos cinematográficos. Deposto e mantido sob absoluto sigilo, foi localizado e retirado por comandos alemães sob a liderança do coronel Otto Skorzeny, oficial da SS que se tornaria célebre por operações de audácia quase teatral.


Planadores pousaram silenciosamente sobre o platô rochoso, e um pequeno avião aterrissou em terreno improvável. Mussolini, atônito, foi levado a Hitler. Skorzeny teria dito a frase que a propaganda nazista transformou em mito: “Duce, o Führer mandou-me buscá-lo.” Instalado na República Social Italiana, no norte, Mussolini passou a chefiar o governo, mas com poderes reduzidos e sob estreita subordinação ao Reich.


Após o avanço sobre Roma, as tropas nazifascistas — cerca de 125 mil homens recuados da Sicília — passaram a viver quase exclusivamente em retirada. O norte da Itália tornou-se alvo de bombardeios aliados constantes e devastadores.


Foi nesse cenário convulsionado que, meses depois, a FEB desembarcaria em Nápoles, chamada a ocupar o espaço deixado no front italiano quando, em agosto de 1944, parte das forças aliadas foi deslocada para o sul da França, na Operação Dragoon, desencadeada após o Dia D (6 de junho de 1944).


A Operação Dragoon tinha como objetivo capturar portos estratégicos no Mediterrâneo, especialmente Marselha e Toulon, ampliando a pressão sobre as forças alemãs e, em seguida, unir-se às tropas da Overlord, completando o grande movimento de pinça sobre o exército alemão.


Sob rigoroso sigilo quanto ao destino e aos detalhes da partida, o 1º escalão da FEB embarcou em 2 de julho de 1944, no porto do Rio de Janeiro, em cerimônia com a presença de Getúlio Vargas e do ministro da Guerra, general Dutra. Pelos alto-falantes, Vargas assegurou que as famílias dos soldados não ficariam desamparadas e concluiu: “Não é um adeus, mas um ‘até breve’, quando ouvireis a palavra da pátria agradecida.”


Para iludir a espionagem inimiga, o destino permaneceu oculto até o último instante. O embarque foi ensaiado repetidas vezes, e o deslocamento de trem até o cais seguiu por trajeto inesperado, enquanto outros trens circulavam vazios sob vigilância reforçada — tudo para confundir os serviços de inteligência.


Em Roma, visitamos o bunker de Mussolini — um labirinto subterrâneo concebido para proteger o líder fascista e sua família dos bombardeios aliados. Entre julho de 1943 e maio de 1944, a capital sofreu 51 ataques aéreos. Na Villa Torlonia, residência de Mussolini desde 1929, foram construídos dois abrigos antiaéreos. O mais impressionante, escavado a seis metros de profundidade, tinha uma laje de quatro metros de concreto armado, portas antigás e sistema de purificação de ar. Paradoxalmente, estava inacabado quando Mussolini foi deposto.


Além do 1º escalão, outros quatro contingentes deixaram o porto do Rio rumo à Itália, todos em navios americanos adaptados ao transporte de tropas. Dois partiram em setembro, o quarto em novembro e o último em fevereiro de 1945, cada qual levando cerca de cinco mil expedicionários.


As embarcações seguiam escoltadas por contratorpedeiros brasileiros e navios americanos, com cobertura aérea em alguns trechos. Durante o dia, os pracinhas permaneciam no convés; à noite, recolhiam-se aos alojamentos, em beliches completamente às escuras, para evitar qualquer luz que denunciasse a posição do navio.
Os navios navegavam em zig-zag evasivo, alterando o rumo a cada 15 ou 20 minutos para dificultar o cálculo de lançamento de torpedos pelos U-boats alemães.


A FEB era um caleidoscópio social: imigrantes, filhos de imigrantes, mestiços, afrodescendentes, indígenas, trabalhadores urbanos e rurais. Diante deles, um inimigo experiente e bem equipado, além de um inverno rigoroso, com temperaturas que chegavam a –15 °C.


Mascarenhas de Moraes resumiu o desafio: “Os três primeiros escalões chegaram à Itália com treinamento incompleto e inadequado, e os dois últimos partiram do Brasil praticamente sem instrução.”
Após a chegada, o 1º escalão seguiu até Tarquinia para treinamentos adicionais. Outros grupos foram para Pisa ou Livorno, seguindo depois para San Rossore.


O deslocamento terrestre ocorreu ao longo de duas noites, em comboios sob rigoroso controle de luzes. Já a navegação costeira em barcaças militares foi penosa: o balanço das ondas e o cheiro de combustível derrubavam o estômago de muitos. As LCI — Landing Craft Infantry — ganharam o apelido bem-humorado de “Lança Comida Interna”.


As tropas brasileiras foram passadas em revista pelo general Mark Clark, comandante do 5º Exército americano. Em 7 de setembro de 1944, a FEB celebrou o Dia da Independência em solo estrangeiro. Mascarenhas conclamou seus homens à missão de libertar o povo italiano do jugo nazifascista.


Os pracinhas estavam ansiosos para entrar em combate. Os primeiros tiros foram disparados na noite de 16 de setembro de 1944, quando começaram a substituir unidades americanas na linha de frente.


Mark Clark registrou: “Os brasileiros estavam ansiosos por entrarem em ação. De fato, era tal a pressa deles que provavelmente não completaram o treinamento de que precisavam após a chegada à Itália.”


A FEB capturou 45 soldados inimigos e sofreu 35 baixas nessa primeira ofensiva. Avançou cerca de 18 km e, em 26 de setembro, rompeu a Linha Gótica na região do Monte Prano.


Esse sistema defensivo estendia-se por 280 km, do Tirreno ao Adriático. Construída sob ordens de Albert Kesselring, reunia fortificações, campos minados, arame farpado, abrigos de concreto, fossos, trincheiras e posições de artilharia.
Foi erguida com trabalho forçado de 15 mil civis italianos pró-Aliados, submetidos ao frio, à fome e ao risco constante de bombardeios. O rompimento dessa linha contou com atuação decisiva da FEB.


Hoje, 81 anos depois, refizemos esse trajeto, não mais a pé, sob chuva ou neve, mas no conforto de uma van climatizada. O roteiro nos levou por Pisa, Lucca, Pistoia, Castelnuovo, Porretta Terme, Monte Castelo, Montese, Collecchio, Fornovo di Taro e, por fim, Milão. Visitamos também o Lago de Como, onde Mussolini foi fuzilado em 28 de abril de 1945.


Ao longo do percurso, destacam-se três batalhas decisivas para a FEB: Monte Castelo, Montese e Fornovo di Taro — tema do próximo artigo.


Apesar dessa trajetória, alguns historiadores ainda atribuem ao Brasil papel secundário na frente italiana. É verdade que o país ingressou no conflito quando a prioridade estratégica dos Aliados já se deslocava para a França. Ainda assim, com a retirada de tropas veteranas da Itália, a FEB tornou-se essencial para manter a pressão sobre as forças alemãs.


Rubem Braga, correspondente brasileiro na guerra, registrou com precisão a realidade enfrentada pelos pracinhas. Chegaram com preparo insuficiente, mas adaptaram-se rapidamente, improvisaram quando necessário, cultivaram forte espírito de solidariedade e conquistaram respeito dos Aliados e da população italiana.


Junto às tropas da FEB — uma divisão completa com soldados, oficiais, médicos, engenheiros, capelães, pilotos, mecânicos, pessoal de suprimentos, transporte e comunicações — embarcaram 67 enfermeiras brasileiras, todas voluntárias, além de outras seis da FAB, totalizando 73 profissionais (sete delas curitibanas). Foram as primeiras mulheres autorizadas a usar o uniforme oficial do Exército brasileiro.


Esse passo abriu caminho para que, em março de 2026, uma mulher alcançasse pela primeira vez o generalato no Exército brasileiro: Cláudia Lima Cacho, médica pernambucana, promovida a general de brigada.


Jacir J. Venturi, filho do expedicionário Leopoldo Venturi. No dia 13 de maio de 2026, embarcamos para a Itália e, ao longo de 18 dias, percorremos a trajetória dos pracinhas brasileiros, além de turistar por Roma, Florença, Milão e Lago de Como. A comitiva de nove pessoas reúne três filhos do expedicionário (Jamil, Neri e Jacir), o sobrinho Ariosnaldo, os netos Fábio, Eduardo, Rennan, Jaline e a nora Regina. Uma viagem de memória e gratidão. Este é o segundo artigo de um conjunto de três sobre a FEB no front italiano. Viemos reviver o sofrimento, a coragem e os momentos épicos que marcaram a trajetória dos nossos pracinhas até 8 de maio de 1945, o Dia da Vitória. Uma jornada de dor, bravura e humanidade que merece ser lembrada.

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