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MINHA AMADA CURITIBA DOS ANOS 70!

Era uma época em que jovens forasteiros, com pouca bagagem e muita esperança, desembarcavam na velha rodoviária do Guadalupe, em busca das boas faculdades, oportunidades de emprego e custo de vida mais acessível que em outras capitais.

Tivemos o privilégio de pertencer a uma geração de jovens com intensa participação político-social. Campeava o regime militar e, após 1968, eclodiam os movimentos estudantis também nas ruas de Curitiba, comícios relâmpagos em pontos de ônibus e praças, como Tiradentes, Zacarias, Osório, e grandes marchas e passeatas partiam da Reitoria, da União Paranaense dos Estudantes e da Casa do Estudante Universitário.

Havia momentos tensos, dramáticos, como as prisões dos líderes estudantis. Mas também havia cenas hilárias, irresponsáveis, diríamos hoje: numa determinada noite, soube- se que o Centro Politécnico seria invadido na manhã seguinte pela Cavalaria do Exército. De madrugada, um grupo de estudantes jogou rolhas de cortiça e bolinhas de gude no asfalto do Centro Politécnico e quando os soldados, montados em seus cavalos, chegaram em disparada, foi um turbilhão de tombos. E como estudante não era bobo, ninguém partiu para o enfrentamento e as pernas se tornaram maiores que a coragem. Foram verdadeiras cenas de um Exército de Brancaleone. 

Jovens idealistas, buscávamos pretensiosamente soluções para os problemas brasileiros. A Universidade necessária, de Darcy Ribeiro, era o livro de cabeceira, e incipientemente, banhávamo-nos nas águas profundas de Marx, Sartre, Marcuse e dos filósofos clássicos.

Líamos Platão e Aristóteles, mas em tom de blague afixáramos um cartaz nas paredes da pensão: "Há muito mais filosofia, muito mais ensinamentos numa república da Riachuelo do que em toda a República de Platão". A bem da verdade, foi nessas repúblicas que nos graduamos na escola da vida – a Street University –, como se dizia. 

Sim, conhecemos a Curitiba provinciana que Dalton Trevisan tão bem descreveu em prosa e verso como a cidade das belas "polacas". Ou nos reportemos a Paulo Leminski que, em alto e bom som, declamava no velho bar Palácio, ao lado do cine Vitória: "Rio de Janeiro é o mar, Curitiba é o bar e onde beber é legítima defesa". O frio de Curitiba era o mote.

Tudo era de Primeiro Mundo. Até o inverno. Sim, o clima gélido merecia o humor fino, tipo inglês, dos próprios moradores. Primeiro: Curitiba só tem duas estações: o inverno e a estação rodoviária; segundo: o verão de Curitiba é tão bom que até o inverno vem aqui passar os seus dias, nos meses de janeiro e fevereiro; terceiro: o último verão de Curitiba caiu num domingo. Foi lindo!

Concordo. O inverno de Curitiba também já não é mais o mesmo. Vimos neve pela última vez em 1975.

Muito trabalho, vida dura para todos os forasteiros. A hipótese de um arrependimento me martelava a cabeça: devia ter dado meia volta quando cruzei pela primeira vez a divisa PR–SC! Por quê?

É que em 1968, o então governador Paulo Pimentel fincou nas estradas de acesso ao estado do Paraná imensas placas onde se lia: “Aqui se trabalha”. 

Nós, catarinenses, que representávamos parte considerável da população de Curitiba, éramos alvos constantes de chacotas. Mas certa feita tive ímpetos assassinos porque alguém escreveu na porta de um banheiro do Centro Politécnico: "Preserve Curitiba, mate um catarina". A contrapartida é que hoje quase metade dos curitibanos passam as férias nas praias de nossa bela e Santa Catarina.

No início dos anos setenta, encantávamo-nos com uma Curitiba que despontava no cenário nacional pela qualidade de vida, capital com mais área verde do Brasil e com um prefeito que afirmava que "acima do automóvel está o cidadão". 

Jaime Lerner e sua talentosa equipe nos surpreendiam com as engenhosas soluções urbanísticas, como a inauguração do Teatro Paiol com Toquinho e Vinícius. Estufamos o peito de orgulho quando soubemos que, naquele dia, as principais casas de espetáculo do mundo anunciavam ao seu público que um novo teatro, em Curitiba, era inaugurado. 

Há também de se destacar a feitura do calçadão da XV, num final de semana, para evitar a reação dos comerciantes e demandas judiciais, e, em 1972, a abertura do charmoso Parque Barigui, inclusive com o intuito de conter enchentes. 

Desde que aqui cheguei, em 1968, aos 18 anos, Curitiba me fascina e proporciona grandes alegrias e oportunidades. E se no meu peito bate um coração que ama, esse coração jamais haverá de negar amor a essa terra. Se Curitiba não me serviu de berço, com certeza me servirá de túmulo.

Jacir J. Venturi Diretor de escola, professor. Cidadão Honorário de Curitiba.

Jacir Venturi