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BOIPEBA, UM PARAÍSO PERTO DO INFERNO

Partimos de barco de Morro de São Paulo e o mais aprazível de uma viagem de 1800 km estava por vir: deslumbrar-se com a Ilha de Boipeba, após boas caminhadas, já que o automóvel é proibido. Boipeba, na etimologia tupi significa “cobra chata”, em referência às tartarugas marinhas, que abundantemente desovavam em seus 20 km de praias. Após 50 min, a primeira parada foi nas piscinas naturais de Moreré, envoltas por corais e convidativas à prática do snorkeling, naquele maravilhoso universo subaquático. Alguns minutos após o reembarque o nativo timoneiro aponta o dedo em direção à orla:

– Aqui estão as praias mais bonitas do Brasil e o “seu” Guido prepara a melhor moqueca de lagosta do mundo!

Pelo conjunto da obra, todos esses superlativos são merecedores. São três praias semidesérticas, idílicas e rústicas, que percorremos a pé: Cueira, Tassimirim e Moreré, na agradável companhia de dois casais jovens paulistanos. Quanto ao “seu” Guido, o ritual de pesca e cozimento é sui generis: à noite, lampião numa das mãos e na outra uma vara de uns 3 m com um polvo morto amarrado na ponta, “seu” Guido adentra nas águas do mar, tendo as estrelas como testemunha. Empurra a vara em direção à praia e como há abundância de lagostas, estas fogem em disparada para o razo, ante o temível polvo. Visíveis à luz do lampião captura uma a uma, as lagostas. A linda moça pergunta:

– Por que o polvo morto e não vivo “seu” Guido?

– Com as ventosas, ele gruda nas pedras!

Nas areias da orla, “seu” Guido prepara a moqueca, em fogão a lenha e servida à sombra dos chapéus-de-sol. Altaneiro, ele enumera um rosário de artistas nacionais e internacionais que ali se fartaram até “lamber os beiços”. Ah! Aquela moqueca sem uma “gelada” não tem como ser a “melhor do mundo”.

– E agora vamos fazer o “quilo”, – sentenciou um dos paulistanos, referindo-se à digestão.

Pegamos a trilha cerca de 40 min, em piso de areia ou pedra. No caminho duas visitas: no museu de ossadas do mar, do “seu” Cabeludo, divertido contador de histórias e no outeiro da Igreja do Divino Espírito Santo, do séc. XXVII. Após esse suave trekking, chegamos ao Rio do Inferno, onde nos aguardava a lancha.

O Rio do Inferno – que a bem da verdade é um braço de mar – recebeu essa designação pelos traiçoeiros bancos de areia na maré baixa, onde encalhavam as embarcações e algumas delas foram alvos de ataques dos tupinambás. Filosofei dualisticamente:

– Neste pedaço de paraíso, o invejoso diabo tinha que deixar a sua marca. Mas pelo enlevo, sinergia e belezas naturais, se houve uma disputa entre o bem e o mal, o bem deu de goleada!

O retorno a Morro de São Paulo por esse rio, nada lembra os infortúnios dos colonizadores, até porque a lancha é leve e veloz e os indígenas foram desaparecendo à saga dos conquistadores da América, onde prevalecia o cruel bordão: “índio bom é índio morto.” Nas margens, restingas e extensos manguezais. Próxima parada: Posto das Ostras, um restaurante flutuante que as cultiva. Puxam as gaiolas e abrem os moluscos fresquinhos que servidos com caipirinha compõem o néctar dos deuses. 

Os guias e os nativos contam muitas lendas. E quando as versões contrariam os fatos históricos, pior para os fatos. Enfim, é divertido ouvir estórias da toca da onça, navios naufragados, embates entre os índios e os brancos, sendo que estes aqui se estabeleceram juntamente com os jesuítas a partir de 1563. Também são convincentes ao apontar a mansão, aeroporto e fazendas de um italiano que seria o dono de um terço da ilha.

Boipeba foi o climax de uma viagem, num carro alugado, de 1600 km de asfalto, 200 km de estradas de terra e 11 h de ferry-boats, catamarãs e barcos. Minha mulher e eu comemoramos 35 anos de casados e em 9 dias abrimos mão do conforto e freneticamente priorizamos as belezas naturais da Costa do Dendê, do Cacau e do Descobrimento.

Um roteiro recomendadíssimo para os meses de junho a agosto – baixa estação com as aventuras da alternância de chuva e sol. Compensa a temperatura média de 26°C e preços módicos. Do percurso fizeram parte: Salvador, Itaparica, Valença, Morro de São Paulo, Boipeba, Península do Maraú (apesar das estradas lamacentas, vale pelas encantadoras praias e piscinas formadas pelos recifes, especialmente Taipu de Fora, onde Duda Mendonça tem uma mansão hollywoodiana), Itacaré, Tamboquinhas (fizemos rafting no Rio de Contas), Itabuna, Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Arraial d’Ajuda, Trancoso, etc.

Em todo o litoral sul baiano, até os coqueiros se debruçam sobre as areias douradas, amistosamente a saudar os turistas. Com certeza, a vasta biodiversidade, seus ecossistemas, as entrâncias da costa, as praias paradisíacas, a empatia de seus habitantes fazem desta orla uma das mais belas do planeta.

PS.: Este texto complementa o anterior O Morro é de São Paulo e eu morro é de saudades, que pode ser lido clicando aqui.

Jacir J. Venturi é diretor de escola e professor aposentado da UFPR e PUCPR.

Jacir Venturi