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MENDOZA: Vinhos, História, Turismo, Curiosidades

Mendoza, com 110 mil habitantes, foi fundada em 1561 ao longo dos canais naturais de irrigação. A bem da verdade era um deserto, hoje transformado em oásis ricamente arborizado pelas diligentes mãos humanas. Recebe a alcunha de “adega da Argentina”, pois a região metropolitana mendoncina é destacadamente a principal joia da coroa, com 70% da produção vinícola da Argentina, e esta ocupa o honroso 5º lugar no mundo. Contrastam gigantescas vitivinícolas com as melhores tecnologias do mundo, ao lado de pequenas cavas artesanais e familiares. As primeiras mudas de videiras, vieram do Chile através dos jesuítas, cruzando os Andes, porém só ganhou notoriedade com a chegada dos imigrantes italianos, espanhóis e franceses, no século XIX.

A região mendoncina oferece a nós brasileiros uma ótima relação custo-benefício. Comparativamente com outros renomados países produtores, aqui a mão de obra e as terras são bem mais acessíveis. São cerca de 1.220 bodegas, que produzem 1 bilhão de litros por ano, onze vezes mais que toda a produção brasileira, com 91,9 milhões de litros em 2011. Mais de 100 vinícolas estão preparadas para receber visitantes. Um bom negócio: vendem ingressos, fazem degustação, fortalecem a marca às pencas de enófilos e enochatos, que saem envergados com caixas de 6 litros, pela metade do preço em relação ao Brasil. Quando se está na Argentina ou Chile, subverte-se uma regrinha de ouro que professa que todo o vinho barato é ruim, embora nem todo o vinho caro seja bom.

O vinho é uma bebida tão antiga quanto a civilização: há registros datados de 6000 a. C., e onipresente na descrição de  porres homéricos nos banquetes greco-romanos às Sagradas Escrituras,e nestas – na versão de um amigo meu – menciona o vinho  122 vezes.  O filósofo inglês Roger Scruton, em seu livro Bebo, Logo Existo rende-se à generosidade do vinho, “um convite ao diálogo e ao perdão que há no fundo de cada taça”. Seguramente, a companhia tem forte influência na qualidade do vinho. Também oportuno se faz Benjamin Franklin: “o vinho é a prova constante de que Deus nos ama e deseja ver-nos felizes”. Ou vale relembrar o conselho do médico do renomado connaisseur  Renato Machado: ”Fique perto dos vinhos que rejuvenescem e longe dos laticínios que envenenam”. Ou se beber vinho fosse pecado, Jesus teria transformado água em Fanta Uva.

Ademais, falar sobre vinhos em ambientes sociais, é um tema amistoso, recorrente e em certa medida demonstra glamour e cultura. Além desta medida, lega-se a imagem de esnobe, pedante, pernóstico e enochato no falar e inconveniente no beber. A linha divisória entre o consumo moderado e a dependência é muito tênue e todos sabemos que são deletérios os malefícios do exagero. Não há consenso em relação à quantidade. É plausível de uma a duas taças diárias, de 250ml. Faço blague quando afirmo que a maior descoberta do século é que o vinho tinto seco contém antioxidantes e resveratrol, que colaboram para reduzir os níveis de LDL (o mau colesterol) e elevar o HDL (o bom colesterol).

O vinho é uma bebida tão antiga quanto a civilização: há registros datados de 6000 a. C., e onipresente na descrição de porres homéricos nos banquetes greco-romanos às Sagradas Escrituras, e estas mencionam o vinho 176 vezes . O filósofo inglês Roger Scruton, em seu livro Bebo, Logo Existo rende-se à generosidade do vinho, “um convite ao diálogo e ao perdão que há no fundo de cada taça”. Seguramente, a companhia tem forte influência na qualidade do vinho. Também oportuno se faz Benjamin Franklin: “o vinho é a prova constante de que Deus nos ama e deseja ver-nos felizes”. Ou vale relembrar o conselho do médico do renomado connaisseur Renato Machado: ”Fique perto dos vinhos que rejuvenescem e longe dos laticínios que envenenam”. Ou se beber vinho fosse pecado, Jesus teria transformado água em Fanta Uva.

No retorno ao Brasil, o infortúnio veio na hora do embarque no aeroporto: aos 22 quilos permitidos pela companhia aérea uma sobretaxa de U$ 10,00 por quilo pelo excesso de bagagem. Tem que fazer conta, pois pagar excesso de bagagem só compensa se o líquido for realmente o néctar dos deuses. Ademais, ensina a sabedoria popular que a vida é muito curta para se beber maus vinhos, e em Mendoza seria um crime de lesa-majestade. É comum garrafas chegarem quebradas ao Brasil, por isso muito zelo nas embalagens.

Quais as características do terroir mendoncino? Altitude que varia entre 900 a 1 800m, solo desértico, escassas chuvas, vento seco denominado Zonda, um benfazejo e inclemente sol (cerca de 300 dias de sol por ano), baixa umidade, constituem o terroir perfeito que afastam insetos, pragas e fungos. Some-se a isso a grande diferença de temperatura entre o dia e a noite. Dias quentes propiciam mais açúcar e noites frias favorecem a produção do tanino. Paradoxalmente, busca-se o equilíbrio entre o doce e o ácido. Os pés da videira são irrigados por gotejamento, através de mangueiras abastecidas pela água do degelo. Aguça a curiosidade quando se vislumbra os parreirais, em sua maioria, cobertos por redes de nylon, com o escopo de protegê-los das chuvas de granizo, tão comuns na região e que em 10 minutos podem comprometer significativamente a produção do ano em curso e do ano seguinte. É uma precaução necessária, sendo que as redes não são estendidas na horizontal e sim na forma piramidal, que devidamente dispostas fazem com que as pedras de gelo caiam no meio das fileiras dos pés de uva. Cada planta de videira produz cerca de 30 cachos de uva. Se o objetivo é produzir vinhos bastante elaborados, um agrônomo especialista seleciona de 3 a 5 cachos apenas, no início da formação, para que a planta produza uvas de excepcional qualidade. Na média 1,2 kg de uva produz um litro de vinho. O açúcar da uva é que define o teor alcoólico do vinho.

Esta região já pertenceu ao Chile, mas devido ao seu isolamento pelas neves e topografia dos Andes, de forma natural, sem guerras, foi acoplada à Argentina. Por que litigar por um deserto? Um devastador terremoto, em 1861 quedó en ruínas a velha cidade, matando metade da população de 12 000 habitantes. Porém, qual fênix renasce a oeste uma nova idade, ao pé da Cordilheira dos Andes, tendo a Av. San Martín (direção Norte-Sul) como divisora entre a velha e nova Mendoza. Com o propósito de abrigar a população em caso de reincidência de um terremoto, projetou-se no centro de Mendoza um quadrilátero cujos vértices são ocupados por 4 praças e no centro deste quadrado, a principal praça, denominada Plaza Independência. Por mais sublime que se considere a devoção a Dionísio ou a Baco (respectivamente deus do vinho na mitologia grega ou romana), a visita às 5 praças é imprescindível, sendo que a Plaza España é a mais bela, e um passeio a pé, pelas calçadas ladeadas de álamos, plátanos e acácias, irrigados por gravidade por canais revestidos de pedras ou concreto, a céu aberto, abastecidos pelo degelo dos Andes e cuja vazão é controlada à montante por comportas. Não há como não se encantar quando vem à lembrança que até o século XVI era uma área inóspita e todas as árvores foram plantadas pelas laboriosas mãos dos colonizadores.

Em belezas naturais nada se compara com o Parque San Martín, inaugurado em 1897, com 420 hectares, milhares de árvores resultantes de mudas trazidas da vasta e gélida região andina. O parque é encimado pelo Cerro de La Gloria com o belíssimo Monumento al Ejercito Libertador com uma impressionante escultura em bronze do uruguaio Juan M. Ferrari, na qual faz apologia ao Exército dos Andes, por quase dois anos adrede treinado por San Martín nesta região. O general José de San Martín, grande estrategista militar, compreende que a independência da Argentina, proclamada em 1816, seria precária, se os espanhóis continuassem dominando os países vizinhos. Destarte, concebe um plano para libertar o Chile e o Peru. Em janeiro de 1817, cruzou heroicamente os Andes e unindo-se ao exército chileno de Bernardo O´Higgins, surpreendem e vencem os espanhóis em duas significativas batalhas (Chacabuco e Maipú). Consolidada a independência chilena, por mais dois anos, San Martín prepara a frota que conduzirá as tropas ao Peru, e em 1821 toma a capital Lima e torna-se o primeiro presidente. Em 1822, desentende-se com Bolívar que marchava do Equador para o Sul, parte para o exílio voluntário para Bruxelas e depois Paris, onde faleceu.

Outra atração é o Estadio Islas Malvinas, um complexo esportivo escavado na terra, e quando se olha do Cerro de la Gloria, só aparece as torres dos refletores, não comprometendo a verdejante paisagem. Neste estádio, o Brasil jogou duas partidas na Copa do Mundo de 1978. Na 1ª fase venceu o Peru por 3x0. Nas quartas-de-final mais uma vitória sobre a Polônia: 3x1. Com este resultado, a Argentina teria que vencer o Peru nas quartas – de - final por uma diferença de 4 gols, para superar o Brasil em saldo e ir à final. Não deu outra: venceu por 6x0, com fortes indícios de suborno, com um Peru apático em campo e cujo goleiro Ramon Quiroga era um argentino naturalizado peruano, e ademais o país - sede estava sob o jugo de uma feroz ditadura militar (de 1976 a 1983). Enfim, Argentina campeã, Brasil invicto em 3º lugar e fomos “campeões morais” nas palavras do técnico Cláudio Coutinho. Jogadores que mais se evidenciaram: Zico, Rivelino, Reinaldo, Leão, Tonico Cerezzo, Roberto Dinamite e Nelinho. O terceiro ponto turístico do Parque San Martin é o Teatro Grego, realmente um típico teatro grego ao ar livre, com aproveitamento da topografia da encosta e formato circular.

Éramos em 8 da família, 4 homens (meus dois irmãos Hélio e Jamil, meu filho Fábio, e eu, todos enófilos), minhas cunhadas Eliane e Fabíola e minhas sobrinhas Isabela (12 anos) e Sofia (7 anos). Todos se deleitaram com as visitas às vinícolas, previamente agendadas pela eficiente guia Cecília (U$ 90,00 a diária), que nos conduziu numa van Sprinter. Foram 3 pernoites e dois dias inteiros dedicados não só a Baco (ou Dionísio, de acordo com a tradição greco-romana), mas também nos rendemos aos encantos do turismo, história, geografia e gastronomia da região, sempre bem conduzidos pela Cecília, formada em Turismo (cdelgado.lavarello@gmail.com).

Nas visitas ouve-se quase sempre o conhecido mantra da produção do vinho, em meio aos tonéis de aço inox e barricas de carvalho francês (mil dólares cada, que permite em média 4 usos, quando os poros ficam cheios de sedimentos) e barricas de carvalho americano (500 dólares, com poros maiores que os franceses). A colheita da uva se faz de meados de fevereiro a meados de abril. É enorme a constelação de tipos de uvas, porém a estrela mais cintilante é a Malbec, oriunda da França. Em ascensão está a Torrontés, uma uva autóctona, pois só é produzida aqui, que produz um vinho branco seco, de aroma inebriante, encantadoramente frutado. Este vinho é chamado apropriadamente de “mentiroso”, pois embevece as narinas, porém na boca é seco, e ao ingeri-lo engana, pois nada é do que anuncia, uma vez rasca a garganta. Seduz o olfato, porém castiga o paladar. Por sua acidez combina com pratos que abusam de especiarias.

Duas são as regiões vinícolas nas cercanias de Mendoza, aproximadamente a 16 km do centro: Luján de Cuyo com destaque para as bodegas: Luigi Bosca (um paradigma de vinho argentino, fundada em 1901, hoje na 4ª geração dos fundadores), Vistalba, Alta Vista, Catena Zapata, Pulenta, Nieto Senetiner, Chandon, Clos de Chacras, Septima, Kaiken) e a outra região é Maipú cujas principais bodegas são: La Rural (fundada em 1895, fabricante dos emblemáticos Rutini, com excelentes preços e um sortido museu com 4.500 equipamentos de vinificação de diferentes épocas), Trapiche, Lopez, Familia Zucardi (esta oferece um dos melhores almoços da região, sendo que na primeira investida do maître o preço é de U$ 60,00, porém com insistência consegue-se opções mais em conta e que vale a pena).

Nossa estada em Mendoza coincidiu com a Fiesta de la Vindimia (colheita da uva), a maior celebração do país com cerca de 60 mil visitantes, iniciada em 1936, uma semana inteira de festa que culmina no primeiro sábado de março no Teatro Grego, superlotado em sua capacidade máxima de 22 mil lugares.

Aurora radiante, dia de retorno para Santiago. Na retina e na mente, uma simbiose de lindas imagens e lembranças. Ao longe a vista majestosa dos altaneiros cerros Tupungato e excepcionalmente o Aconcágua. O Aconcágua, que na língua indígena huarpe, significa “sentinela de pedra” e com seus 6.962m representa não só o ponto mais elevado dos Andes, mas da Terra, excluindo-se a Ásia. O vulcão inativo Tupungato, “janela de estrelas” na etimologia huarpe, com seus 6.565m é o segundo mais alto da cadeia de montanhas andinas. Parreirais que se perdem no infinito, alternados por fileiras de olivas (sim, aqui se produz excelente azeite) e álamos ,abundância de rosas multicoloridas (a guia turística afirma que as rosas são importantes sensores para as videiras, pois quando as rosas adoecem, intensa deve ser a aplicação dos fungicidas nos parreirais), neves eternas, desertos, estações de esqui especialmente Las Lenãs e Los Penitentes, desafiadoras montanhas para os “andinistas”, esportes náuticos, rafting, trekking, pesca, e os melhores vinhos do mundo, o que estaria faltando? Falta tempo para desfrutar de tantas belezas e sinergia. Ao caro leitor, sugiro que sacrifique o que for necessário para dedicar um dia, preferencialmente em carro alugado, pela Ruta 7, fazer o percurso de Mendoza a Santiago. São 355 km, transpondo os Andes, com uma dezena de paradas obrigatórias. Porém, cuidado, no inverno esta é uma estrada perigosa, devido às nevascas. Veja o nosso próximo artigo: Estrada de Los Caracoles - Mendoza a Santiago.


Jacir J. Venturi, Coord. da Universidade Positivo, professor aposentado da UFPR e PUCPR, autor de livros, fazendeiro e enófilo.

Obs.: essa viagem aconteceu em março de 2012.

Jacir Venturi