© 1998-2019 por Jacir J Venturi. Todos os direitos reservados.

Artigos

DOS 3 AOS 8 ANOS, A CRIANÇA MERECE UMA BOA ESCOLA

Uma vigorosa transformação nas escolas de Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental ocorreu nas duas últimas décadas. E o melhor, uma expressiva valorização dos pais, enquanto no passado era recorrente a frase: “Ah, meu filho vai para o Jardim só para brincar”. De fato, com honrosas exceções, havia um trabalho árduo das cuidadoras e pouca pedagogia, embora lembremos que, para uma criança, atividades lúdicas bem planejadas são imprescindíveis.

Hoje, dispondo de estatísticas da UNESCO, 65% das crianças brasileiras frequentam a pré-escola, belo índice, pois é similar ao dos países com elevado grau de desempenho educacional.  Um estudo da FGV, recentemente divulgado, concluiu que os meninos e meninas que fizeram a Educação Infantil, ao chegarem ao 5º ano se diferenciaram significativamente em conhecimento e capacidade de aprendizagem, especialmente em Matemática e Português. Convicto estou, depois de 40 anos de atividade profissional em todos os níveis de ensino, que, se fosse me dada uma única opção de colocar meu filho numa excelente escola, não titubearia: não seria na Universidade, tampouco no Ensino Médio, mas sim numa escola dos 3 aos 8 anos.

Referindo-se à aprendizagem, é comum ouvir que a criança é uma “esponjinha”, pois retém, absorve tudo com muita facilidade quando estimulada. É uma das fases de melhor desenvolvimento neuropsicomotor. Aos 5 anos, a meninada deve estar inserida em um ambiente alfabetizador, num alegre convívio com o mundo das letras, para que não apenas o código da língua seja apreendido, mas também as práticas sociais de leitura e escrita ― é o chamado letramento. Pais, controlem a ansiedade e evitem comparações: cada menino ou menina tem seu ritmo! Alfabetizar precocemente não significa alfabetizar melhor. A alfabetização e o letramento são processos, não se deve estabelecer uma série como a série da alfabetização e do letramento, mas sim um percurso de enlevo e concomitantemente de  estímulo às práticas de leitura, escrita e oralidade.

Por volta dos 6 ou 7 anos, o nosso “Einsteinzinho” começa a desenvolver o raciocínio lógico, o que ― parafraseando a psicopedagoga  Maria Irene Maluf ― o habilita a participar de jogos e brincadeiras com regras mais elaboradas.  É uma atividade lúdica e um rito de passagem ao maravilhoso universo da Matemática.

A base da pirâmide demográfica se estreitou, diminuindo o número de filhos e via de regra o pequeno torna-se o “reizinho voluntarioso” numa casa de adultos. Na versão francesa, de l’enfant roi para l’enfant terrible há uma linha tênue. Em décadas passadas, as brincadeiras eram compartilhadas com os irmãos, primos e vizinhos, nos quintais, ruas e parques. Hoje, em parte, o filho convive essencialmente com adultos,  pequenos animais de estimação, tem acesso a shoppings, videogames, TVs, computadores. Essa postura sedentária e mais a ingestão sem controle de guloseimas ou excesso de alimentos no âmbito das famílias são as principais justificativas do contingente de 30% de nossas crianças com sobrepeso.

No ambiente escolar, os aluninhos passam por experiências enriquecedoras: compartilham experiências, cooperam entre si, ampliam o vocabulário, interagem com os coleguinhas, aprendem as regras de convivência no coletivo. E não menos importante: iniciação aos valores éticos, respeito ao meio ambiente, à diversidade, à hierarquia, aos horários, bem como a incorporação de bons hábitos alimentares, com o consumo de frutas, verduras e legumes, muitas vezes obtidos da horta que eles mesmos ajudaram a plantar e regar. São requisitos indispensáveis para o desenvolvimento da autonomia, autoconhecimento, identidade e os preparam para as fortes exigências futuras, formando adultos com boas relações sociais, familiares e profissionais.

Jacir J. Venturi é vice-presidente do SINEPE/PR, diretor de escola e foi professor da UFPR, da PUCPR, de cursos pré-vestibulares e de escolas públicas e privadas.

Jacir Venturi