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Mesmo fazendo pouco, o trabalho comunitário enobrece

Mesmo fazendo pouco, o trabalho comunitário enobrece. Belas e oportunas são as palavras do ícone maior do voluntariado – Madre Tereza de Calcutá: “Minhas ações podem ser pequenas, gotas no oceano. Mas sem essas gotas, o oceano seria menor.”

É preciso ser proativo, como o fabulativo beija-flor em contraponto ao egocêntrico elefante: era verão e o fogo crepitava feroz na floresta. O obeso elefante fugiu para o grande rio que permeava a floresta, e os outros animais se puseram a debelar o incêndio. O beija-flor apanhava uma minúscula porção de água e a arremessava sobre as chamas, enquanto o elefante, com sua tromba avantajada, refestelava-se na segurança do rio. O elefante, ao observar o colaborativo beija-flor em suas idas e vindas, pergunta:


- Meu pequeno pássaro, que fazes? Não vês que de nada serve a tua ajuda?
- Sim, responde o beija-flor, mas o importante para mim é que estou fazendo a minha parte!

Via de regra, o jovem é generoso, mas lhe falta iniciativa e uma maior consciência social. Numa pesquisa que realizamos com 1 900 alunos de três escolas de Curitiba, constatamos que apenas 8% dos jovens participam de ações comunitárias. No entanto, 71% gostariam de participar, mas não sabem como. Assim, estamos muito aquém dos países da Europa e da América do Norte, onde a inserção dos jovens em projetos comunitários é relevante: de 40% a 62%. Ter sido um ator social é relevante em um currículo. Muitas empresas entendem que esse candidato é colaborativo, mantém bons relacionamentos, sabe se doar, desenvolve mais rapidamente a liderança e não se apequena ante às vicissitudes.

A bem da verdade, o planeta será salvo não apenas pelos governos ou ONGs, ou pela nossa comiseração, mas pelas ações concretas de cada um de nós. Não basta condoer-se com o desmatamento da floresta amazônica, com a morte dos ursos polares, com a extinção do mico-leão-dourado ou do minhocuçu.

A falta de proatividade se desvela naquilo que está cotidianamente ao alcance de todos: o índice de separação de lixo está estacionado há anos, apesar de todas as campanhas da mídia e das escolas. Em contrapartida, cresce em 6,8% a produção anual de resíduos atingindo em 2010 a cifra de 71 bilhões de toneladas, que corresponde a 376 kg/ano por brasileiro (de mamando a caducando). Se esse número é menor no meio rural, triplica nas cidades maiores.

Não estamos desenvolvendo a cultura do consumo responsável. Sim, embalagens e sacolas que envolvem os produtos adquiridos, além de elevar o custo, têm como destino o aterro sanitário, lixões a céu aberto, mananciais e rios. A maioria das famílias em datas festivas, como aniversário, dia da criança, passam horas no shopping e voltam carregadas de sacolas. Conheço pais que não oferecem presentes. Em troca dedicam uma tarde ou um dia inteiramente ao filho. São horas de muita interação: brincar num parque ou chácara, jogar bola, subir em árvores, pedalar, nadar, andar a cavalo, empinar pipa, correr de rolimã, dar banho no cãozinho, ler e contar histórias, cantar e ouvir música, assoviar, assistir a um filme, cozinhar, lavar os pratos e talheres, dialogar sobre os amigos e a escola. E não menos importante: pai e/ou mãe manifestam num belo cartão seu afeto e as principais qualidades e virtudes do filho, para o seu autoconhecimento.

Considere o melhor troféu ─ ou um butim de guerra ─ seu filho chegando em casa, com a roupa suada, suja ou molhada por uma chuva de verão. Um pouco de vitamina S (S de sujeira) fortalece o sistema imunológico infantil. Ademais, as atividades ao ar livre, nos horários recomendados, fazem com que os benfazejos raios solares fortaleçam os ossos e são excelentes como terapia para a mente.

Jacir J. Venturi, coordenador da Universidade Positivo (UP), foi professor e diretor de escolas públicas e privadas.

Jacir Venturi

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