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UM PARAÍSO PERTO DO INFERNO

Em comemoração aos 35 anos de casamento, minha mulher pediu Morro de São Paulo, ao sul de Salvador. A cada ano, ela sugere uma viagem. Concordo, revitaliza a convivência. Após o píer, subida íngreme. As malas foram de “táxi”. Como o automóvel é proibido na ilha, os “táxis” são carrinhos de construção, com concha de plástico, por causa da maresia e empurrados – pasmem – por lépidos baianos. Após uma noite chuvosa, uma manhã de bom sol. O mais aprazível estava por vir: um passeio de barco à ilha de Boipeba.

Boipeba, na etimologia tupi significa “cobra chata”, em referência às tartarugas marinhas, que abundantemente desovavam em seus 20 km de praias. Uma hora de navegação, o nativo timoneiro aponta o dedo em direção à orla:

– Aqui estão as praias mais bonitas do Brasil e o “seu” Guido prepara a melhor moqueca de lagosta do mundo!

Pelo conjunto da obra, todos esses superlativos são merecedores. São praias semidesérticas, idílicas e rústicas, que percorremos a pé, na agradável companhia de dois casais jovens paulistanos. Quanto ao “seu” Guido, o ritual de pesca e cozimento é singular: à noite, lampião numa das mãos e na outra uma vara de uns 3 metros com um polvo morto amarrado na ponta, “seu” Guido adentra nas águas do mar, tendo as estrelas como testemunha. Empurra a vara em direção à praia e como há abundância de lagostas, estas fogem em disparada para o razo, ante o temível polvo. Visíveis à luz do lampião captura uma a uma, as lagostas. A linda moça de biquíni pergunta:

– Por que o polvo morto e não vivo “seu” Guido?

– Com as ventosas, ele gruda nas pedras!

Nas areias da orla, “seu” Guido prepara a moqueca, em fogão a lenha e servida à sombra dos chapéus-de-sol. Altaneiro, ele enumera um rosário de artistas nacionais e internacionais que ali se fartaram até “lamber os beiços”. Ah! Aquela moqueca sem uma “gelada” não tem como ser a “melhor do mundo”.

– E agora vamos fazer o “quilo”, – sentenciou um dos paulistanos, referindo-se à digestão.

Após suave trekking, chegamos ao Rio do Inferno, onde nos aguardava a lancha. O Rio do Inferno recebeu essa designação pelos traiçoeiros bancos de areia na maré baixa, onde encalhavam as embarcações e algumas delas foram alvos de ataques dos tupinambás. Filosofei dualisticamente:

– Neste pedaço de paraíso, o invejoso diabo tinha que deixar a sua marca. Mas pelo enlevo, sinergia e belezas naturais, se houve uma disputa entre o bem e o mal, o bem deu de goleada!

O retorno a Morro de São Paulo por esse rio, nada lembra os infortúnios dos colonizadores, até porque a lancha é leve e veloz e os indígenas foram desaparecendo à saga dos conquistadores da América, onde prevalecia o cruel bordão: “índio bom é índio morto.” Nas margens, restingas e extensos manguezais. Próxima parada: Posto das Ostras, um restaurante flutuante que as cultiva. Puxam as gaiolas e abrem os moluscos fresquinhos que servidos com caipirinha compõem o néctar dos deuses.

Os guias e os nativos contam muitas lendas. E quando as versões contrariam os fatos históricos, pior para os fatos. Enfim, é divertido ouvir estórias da toca da onça, navios naufragados, embates entre os índios e os brancos, sendo que estes aqui se estabeleceram juntamente com os jesuítas a partir de 1563. E hoje adulto, reacende o imaginário de adolescente, o triste fim do Bispo Sardinha,comido pelos indígenas, que para a professora – uma freira – não havia qualquer conotação pejorativa.

Em todo o litoral sul baiano, até os coqueiros se debruçam sobre as areias douradas, amistosamente a saudar os turistas. Com certeza, a vasta biodiversidade, seus ecossistemas, as entrâncias da costa, as praias paradisíacas, a empatia de seus habitantes fazem desta orla uma das mais belas do planeta. E no início da viagem, quando minha mulher argumentou – mais uma lua de mel – fiz chiste: agora não é quando eu quero, mas quando ele quer! E fico a meditar: o Morro é de São Paulo, e eu morro é de saudades.

Jacir J. Venturi é diretor de escola e professor aposentado da UFPR e PUCPR.

Jacir Venturi