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O LIXO RICO

Éramos 60, entre professores e educadores, sendo 40 do Japão e 20 do Brasil. Foi o convívio de um final de semana, porém de intensa troca de experiências. Um dos testemunhos:

– No Japão, nós não temos zeladoras dentro da escola. Quem faz a limpeza das salas, pátios, cozinha e banheiros são os alunos, sob a nossa orientação.

É o ganha-ganha, pois se estabelece a cultura da organização e asseio na escola, que se estende para os lares, fábricas e ruas. Há, portanto, redução nos custos e uma natureza agradecida com a reciclagem do lixo. As escolas e as famílias nipônicas praticam fortemente os 3Rs: Reduzir (a geração de resíduos); Reutilizar (os materiais ainda úteis); Reciclar (o máximo possível).

Cada brasileiro de classe alta ou média produz de 500 a 1000 kg de lixo por ano, sendo que metade desses dejetos poderia ser reciclado ou reutilizado. Estudo da UFRJ demonstra que se todo o lixo do Brasil fosse reaproveitado, haveria uma economia de 15% na produção de energia, o que equivale à metade da potência instalada em Itaipu.

Há muito plástico, papel, vidro e metal sendo atirado nos sacos de resíduos orgânicos, inviabilizando o reaproveitamento. Gravíssimo é o comprometimento do lençol freático provocado pela decomposição do lixo tóxico (pilhas, baterias, lâmpadas, tintas, remédios vencidos, embalagens de inseticidas, etc.)

Em 1989, instalou-se o aterro sanitário da Caximba para atender a 15 municípios de Curitiba e Região Metropolitana, e que hoje recebe 2500 toneladas de lixo por dia. Como a capacidade do aterro está esgotada, são imensas as dificuldades de uma transferência: inexistência de áreas apropriadas, rejeição da vizinhança e significativa ampliação nos custos.

Uma das agressões à natureza produzida pelo aterro é o líquido gerado pela degradação dos resíduos – o chorume. O aterro da Caximba produz 20 milhões de litros de chorume por mês que, após um questionável tratamento químico, é lançado carregado de coliformes nas cavas e no próprio rio Iguaçu. Mesmo com a desativação do aterro sanitário, o chorume continuará sendo produzido em até 20 anos.

Os índices de reaproveitamento do lixo são incertos, pois há recolhimento deste por parte dos carrinheiros, uma categoria não organizada e de difícil mensuração. Verdadeiros heróis da reciclagem – um número que varia de 5000 a 10000 na capital paranaense – os catadores têm nessa atividade a única alternativa de sobrevivência. Causam irritação em muitos motoristas pela lentidão que provocam no trânsito. Diria que vale a pena uma experiência: descer do automóvel e empurrar por um quarteirão o carrinho com o peso médio de 150 kg. Com uma receita diária de 10 a 15 reais, são responsáveis pelo recolhimento de 75% (estimativa) do volume de lixo reciclável.

Sempre oportunas são as palavras de uma síndica: “muitos condôminos não separam o lixo. Faço isto com os meus funcionários e doo para os catadores. É uma ação de respeito à natureza e tem um significativo valor social.” Isso mesmo: separar o lixo é um ato de cidadania e consciência ambiental. Não basta uma atitude compassiva, quando a solução é sermos proativos. É insensato e irônico: nós, humanos, que nos proclamamos inteligentes, somos os únicos – os únicos – a promover o desequilíbrio natural.

Jacir J. Venturi Diretor de escola. Foi professor do Ensino Fundamental, Médio, pré-vestibular, da UFPR e da PUCPR.

Jacir Venturi