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Que fim, ó cara, você deu à minha cidade

Duas forças se antagonizam dentro de mim. Comemoro os 319 anos de uma Curitiba transformada e progressista. Em contrapartida, nostalgicamente faço coro com Dalton Trevisan: “Que fim, ó cara, você deu à minha cidade”. Cadê a Curitiba dos anos 70?

Sim, me conformo e me quedo à racionalidade: não só Curitiba mudou. Eu também mudei, pois quando aqui cheguei tinha apenas 17 anos. A suprema ousadia dos forasteiros que aqui chegavam com pouca bagagem e muita esperança era namorar uma de suas belas polacas. Poucos foram os contemplados, pois Curitiba era tida como uma cidade puritana e provinciana. Vigiadíssimas ― ensina a sabedoria popular, toda donzela tem uma mãe que é uma fera ―, eram louras inteligentes(!), casadouras, seios fartos e naturais, pernas bem torneadas e fogo contido. 

Após meses de investidas e bom comportamento, os pais convidavam para o primeiro almoço de domingo, no Cascatinha ou no Madalosso. Um feito e tanto para os reféns do “bandejão” do RU ou da CEU, onde nos cotizávamos com os amigos  para pedir Crush ou leite com capilé. Mais alguns meses de namoro, obtinha-se a carta de alforria: assistir a filmes no cine Vitória. O retorno para casa era cronometrado pela mãe.

À custa de muito, mas muito trabalho obtinha-se o sonho máximo de consumo, financiado em 36 meses: um Fusca, um Gordini ou um DKV “dois tempos”. Com tala larga, rodas de magnésio, volante esportivo, com diâmetro de 25 cm e com a marca Fórmula 1, escapamento aberto e som estéreo – ou mistério. Dizíamos que o carro tinha 16 válvulas. Mas como 16 válvulas? Sim, quatro no motor e 12 no rádio. Dentro da "caranga", até o "goiabão" se transformava num "pão". Tudo era uma "brasa, mora". Sim, concordo, as gírias soam horríveis aos ouvidos de hoje! Suprema felicidade: levar a nossa amada para um passeio na Avenida Nossa Senhora da Luz, sem sinaleiros nem radares. Em cada troca de marcha, a mão se ampliava e roçava-lhe o joelho, que fingia brabeza.              

Embora o Pasquim fizesse pilhéria com Curitiba como “a terra dos sapos e pinguins”, no início dos anos 70, encantávamo-nos com ela, pois despontava no cenário nacional pela qualidade de vida, capital com mais área verde do Brasil e com um prefeito que afirmava que “acima do automóvel está o cidadão”. Jaime Lerner e sua talentosa equipe nos surpreendiam com as engenhosas soluções urbanísticas, como a inauguração do Teatro Paiol em 27 de dezembro de 1971, com Toquinho, Vinícius e Trio Mocotó. Estufamos o peito de orgulho quando soubemos que, naquele dia, as principais casas de espetáculo do mundo anunciavam ao seu público que um teatro de arena, em Curitiba, ressurgia de um antigo depósito de pólvora. Há também de se destacar a pavimentação em petit-pavet do calçadão da XV, em apenas um final de semana, para evitar a reação dos comerciantes e demandas judiciais, e, em 1972, a abertura do charmoso Parque Barigui, inclusive com o intuito de conter enchentes.

Tudo era de Primeiro Mundo. Até o inverno. Sim, o clima gélido merecia o humor fino, tipo inglês, dos próprios moradores que faziam blague afirmando que Curitiba só tem duas estações: o inverno e a estação rodoviária. Tampouco o inverno de Curitiba é o mesmo. Vimos neve pela última vez em um longínquo 1975. Em contrapartida, uma variação térmica de 17ºC ― pela manhã os termômetros marcaram 10ºC e à tarde, 27ºC ― no primeiro dia de outono deste ano nos obriga a sair de casa com suéter, camisa regata, capa de chuva e sistema imunológico de um tibetano.

À neve de Curitiba, seguiu-se no dia 18 de julho a tragédia da geada que destruiu os cafezais no interior do Paraná, gerando um grave problema social, pois “200 mil famílias não teriam campo de trabalho”, conforme editorial da Gazeta do Povo daquele ano. Consequência: início de intenso êxodo rural e da favelização de Curitiba. Talvez, nisso resida uma das principais causas nas mudanças negativas, quer urbanísticas, quer sociais da até então aprazível e bucólica “cidade sorriso”. É, mudou a cidade (sorriso amarelo?) e nós com ela. Certamente, os efeitos do tempo foram danosos à nossa amada Curitiba, entretanto mais deletérios para nós, os jovens dos anos 70. Fica um consolo: a única alternativa à morte é a velhice!

Jacir J. Venturi é vice-presidente do SINEPE/PR, diretor de escola e foi professor da UFPR, da PUCPR, de cursos pré-vestibulares e de escolas públicas e privadas.  

Jacir Venturi