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NOVO ENEM

Até o próximo ano, são fortes os indicativos de que o sistema de seleção unificado – o novo ENEM  seja amplamente praticado pela maioria das Instituições de Ensino Superior (IES), quer públicas, quer privadas, uma vez que poderão disponibilizar as suas vagas para todo o Brasil, na busca dos melhores alunos.

Muitos são os desafios e o prazo é exíguo. O debate é intenso, gerando mais calor do que luz. Louve-se, no entanto, a postura não impositiva do MEC. A adesão por parte das IES é facultativa. Tanto pode se efetivar em 2009 ou em qualquer outro ano, tanto pode servir como fase única ou apenas servir como 1ª fase. É uma flexibilidade bastante atraente, pois permite que haja uma 2ª fase, sob a responsabilidade da própria Universidade, com questões específicas ou até mesmo regionais. A adesão das Instituições Federais deve ser manifestada até 30 de abril, através de seus Conselhos Universitários.

A proposta do MEC apresenta um atributo relevante: a unificação dos currículos. As atuais ementas são excessivas e apresentam disparidades de uma IES para outra.

O conteúdo programático do nosso Ensino Médio merece ser mais bem descrito e mais enxuto, a exemplo do que aplica o SAT (Scholastic Assesment Test)  o vestibular norte-americano  ao qual o novo ENEM pretende se modelar.

Tenho absoluta convicção, dada a minha experiência com a sala de aula, há 35 anos, de que diversos tópicos de capítulos da Matemática devem ser eliminados por serem desnecessários para a maioria das faculdades ou porque serão reapresentados nos cursos de Ciências Exatas. A mesma inferência vale para as demais disciplinas.

Humanizar o vestibular não é fazer com que o aluno estude menos e sim, que empregue honestamente o seu tempo, preparando-se bem para as elevadas exigências futuras: raciocínio lógico, boa escrita, boa oralidade, cultura, cidadania, valores, respeito ao meio ambiente, aptidão às tecnologias, etc.

Lê-se amiúde que o vestibular atual é decoreba, conteudista, eivado de macetes. São manifestações inconsistentes, extemporâneas, de pessoas que não se dão ao trabalho de avaliar um processo seletivo em que prevalece a meritocracia.

Todos queremos um aluno mais reflexivo e o ingresso no ensino superior se faz, atualmente, por meio de provas que exigem raciocínio lógico, produção de textos e questões que contemplam conteúdo, mas também, compreensão de texto, aplicações práticas, contextualização e interdisciplinaridade.

O INEP  órgão do MEC encarregado de implantar o novo ENEM  tem expertise para esse imenso desafio. Ainda há outras indagações que aguardam respostas:

1) Quando o novo ENEM for implantado a plena carga, serão 5 milhões de redações a serem corrigidas. Julgo ser impossível concentrar esse trabalho em Brasília e se núcleos de correção forem distribuídos em diversos pontos do Brasil, como manter um critério uniforme de correção?

2) As provas serão aplicadas em 3 e 4 de outubro. Quando conheceremos o programa?

3) O MEC promete a divulgação dos resultados no dia 4 de dezembro (para as 200 questões) e o resultado final em 8 de janeiro, incluindo a redação. É tempo excessivo, tendo em vista a tecnologia das leitoras óticas. Esse calendário traz imensas dificuldades para se implantar uma 2ª fase.

4) Se houver quebra de sigilo em Macapá, o vestibular do Brasil inteiro seria anulado?

5) Para o ano de 2009, as datas de 3 e 4 de outubro são precoces, uma vez que os alunos do 3º ano recém iniciaram o 4º bimestre. Ademais, sendo 3 de outubro um sábado, como ficam os adventistas?

6) A tão apregoada mobilidade pode apresentar problemas, uma vez que muitos dos aprovados não poderão migrar para outras cidades para estudar, por falta de recursos.

7) Somos um país com grandes disparidades regionais. O Reitor da Universidade Federal do Vale do Rio São Francisco receia que, principalmente em cursos mais concorridos, como Medicina, alunos de regiões mais ricas, por terem melhor nota, ocupem as vagas em detrimento dos estudantes do semiárido e, após formados, voltem à terra natal.

8) Definido o regramento para o novo ENEM, sugere-se o debate para implantar um novo ENEM seriado, com conteúdo programático e provas para cada série do Ensino Médio. As 3 notas seriam consideradas para o ingresso na Universidade.

9) O MEC promete inscrição gratuita para o novo ENEM. Atualmente, as Universidades atendem os carentes. Essa verba não seria mais bem empregada em nossa combalida Educação Básica?

10) Num prazo de 15 dias, pela Internet, e após 8 de janeiro, o aluno poderá fazer 5 inscrições de cursos diferentes na mesma Universidade ou em até 5 Universidades diferentes. Nesse período cada candidato fará dezenas ou centenas de acessos na busca da melhor opção. Como serão os últimos minutos do prazo derradeiro?

Enumeramos essas dúvidas com um único objetivo: cinco milhões de candidatos anseiam por uma normatização clara e urgente quanto aos vestibulares deste ano. Eles necessitam da motivação de que o conteúdo que está sendo estudado constará no programa. Eles empunham a chama esplendorosa da esperança num futuro promissor, mas também carregam o fardo da incerteza e da insegurança. Assim, vamos compartilhar as palavras de Manuel Bandeira, recorrentes nos vestibulares: “Ah, como dói viver quando falta esperança.” 

Jacir J. Venturi É diretor de escola e foi professor da UFPR, da PUCPR, de cursos pré-vestibulares e de escolas públicas e privadas.

Jacir Venturi