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UFPR UM PEDAÇO DE MIM

A UFPR me fascina e me proporcionou grandes alegrias e oportunidades. E, se no meu peito bate um coração que ama, este coração jamais haverá de negar amor e gratidão a essa veneranda instituição. Ali lecionei por 25 anos. Ali fui aluno de Engenharia e Matemática.

Conheci a UFPR num momento bizarro. Prosaico e hilário, diria hoje. Em 1968, campeava o regime militar e eclodiram os movimentos estudantis nos mais diversos pontos de Curitiba. A repressão era feroz, e eu não passava de um jovem imberbe e sonhador. Numa determinada noite, soubemos que o Centro Politécnico seria invadido na manhã seguinte pela Cavalaria do Exército. De madrugada, fui convencido por um grupo de estudantes a participar de um ato, de modo que jogamos centenas de rolhas de cortiça e bolinhas de gude no asfalto de entrada daquele câmpus.

O dia amanhecia e nós, no alto da colina, mantínhamos a mais que prudente distância. Eis que nossos corações começaram a palpitar fortemente. Sim, lá vinham eles, soldados garbosamente montados em seus ginetes. Não vi – nem meus colegas viram – o que aconteceu. Turbilhão de cavalos tombados? Somente no nosso imaginário, pois ninguém partiu para o enfrentamento. As pernas se tornaram maiores que a coragem. A debandada foi de um verdadeiro Exército de Brancaleone.

Na década de 70, havia outro tipo de embate. Dois cursos se digladiavam: Engenharia e Arquitetura. A provocação se iniciou com um adesivo: “Construa certo, contrate um arquiteto.” E nós revidamos com outro: “Construa certo e com pouco dinheiro, contrate um engenheiro”.

Nós, catarinenses que representávamos parte considerável da população de Curitiba, éramos alvos constantes de chacotas. Certa vez, tive ímpetos selvagens ao ver que alguém escreveu na porta de um banheiro do Centro Politécnico: “Preserve Curitiba, mate um catarina.” O meu consolo é que hoje aquele escriba pernóstico deve  estar passando férias nas praias da nossa bela e Santa Catarina.

Por 11 anos, fui assistente do professor Leo Barsotti, um dos maiores ícones da UFPR. A disciplina era Geometria Analítica e as temidas provas aconteciam num único horário e local: sábados, às 7h, na fatídica “câmara de gás” do Centro Politécnico. Participavam da prova 300, 400 alunos.

“Quem não cola não sai da escola”, era a filosofia dos alunos; por isso, nós, professores, mais parecíamos um pelotão de fuzilamento. Boa parte dos alunos passava a noite em claro, preparando-se para aquele “Inferno de Dante”.

Às 4h da manhã do dia da prova, toca o telefone na cabeceira da minha cama. Assustado, atendo:

— Alô...

— O Napoleão está?

— Aqui não tem nenhum Napoleão!

— Mas por que o cavalo dele está dormindo aí?

Num primeiro momento, prevaleceu a minha zanga: “a vingança é um prato que se come frio. Esperem a próxima prova!” Qual nada, pensei melhor: o trote foi um chiste espirituoso e assim ferrei tranquilo no sono. 

Os alunos tinham o professor Barsotti como um cartesiano, essencialmente racional. E diziam que, quando contava a história dos três porquinhos a seus filhos, assim iniciava: “Era uma vez uma floresta F, onde havia três porquinhos P1, P2, P3, sendo P1>P2>P3 ...”

A convivência com o professor Barsotti me levou a admirá-lo, por ser um profissional competente, criterioso, justo e dotado de grande cultura. Sobre sua mesa de trabalho lia-se uma única frase, em bom latim: “Homo sum; humani ninhil a me allenum puto” – verso de Terêncio (c.190 – c.159 a.C.), comediógrafo romano. Traduzindo: “Homem sou; nada do que é humano reputo alheio a mim.”

Jacir J. Venturi Professor aposentado da UFPR, Cidadão Honorário de Curitiba, autor dos livros Álgebra Vetorial e Geometria Analítica (9ª edição) e Cônicas e Quádricas (5ª edição).

Jacir Venturi