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O ENSINO MÉDIO PEDE SOCORRO

No espectro das mazelas da educação brasileira, o Ensino Médio apresenta estatísticas angustiantes: dos 10,5 milhões de jovens na faixa etária de 15 a 17 anos, apenas 47,7% mantêm adequada a relação idade/série e 1,9 milhão desses jovens abandonam a escola em cada período letivo.

Ano a ano, estamos enxugando mais gelo. Em 2007, o índice de reprovação atingiu 12,7% − o dobro do percentual de dez anos atrás. A prof.a Nora Krawczyk, da Unicamp, com fulcro nos dados do IBGE, declara que o acesso ao Ensino Médio é profundamente desigual, pois, dos 15 aos 17 anos, entre os 20% mais pobres, apenas 24,9% estavam matriculados, enquanto entre os 20% mais ricos o percentual sobe para 76,3% (Folha de S. Paulo, 3/7/09). A gripe A (suína) tem provocado atitude e prevenção na mais absoluta maioria e cujo índice de óbitos é de 0,00002 por mil brasileiros. O contraponto é a passividade diante das estatísticas estarrecedoras: dois jovens, a cada mil, morrem assassinados e Foz do Iguaçu detém o índice mais elevado com 9,7 (Gazeta do Povo, 22/7/09).

Aproximadamente 80% dos jovens chilenos concluem a Educação Básica. A escolaridade média da população daquele país andino é de 9,2 anos (6,1 anos no Brasil). Desde 2003, uma reforma  constitucional determinou que a criança e o adolescente tenham um mínimo obrigatório de 12 anos de estudo. No Brasil, esse mínimo é de 9 anos.

Em qualquer ranking comparativo com outros países, sempre pontuamos entre os últimos no quesito desempenho escolar. Para reverter esse quadro, o primeiro passo – e único que não exige dispêndios financeiros – é reduzir o conteúdo da atual grade curricular do Ensino Médio. O colégio deve ser mais atraente, ou, de acordo com a pesquisa, o principal motivo de abandono e reprovação é que a “escola é chata”.

Amiúde, debatemos com os professores das diversas disciplinas, os quais são unânimes em afirmar que há sobrecarga de conteúdos. É a hora e a vez de um bom discernimento para enxugar o programa do Ensino Médio. Destarte, alargaremos os horizontes e estaremos dando um primeiro passo em direção aos países com boa estrutura educacional.

Essa parece ser uma tendência universal, conforme constataram diretores que participaram, em anos consecutivos, de um programa de imersão em mais de uma centena de escolas na Itália, Finlândia, França, Alemanha, Chile, Canadá, EUA, Noruega, Espanha, Portugal, Inglaterra, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia. Após essas visitas, ou fruto das nossas leituras ou vivências, é razoável afirmar-se: por decorrência dos vestibulares, o nosso Ensino Médio necessita de uma assepsia, cujos vermes são os excessos da grade curricular. 

Essa posição pode ser corroborada com o relato da revista Veja: O prêmio Nobel de Física, Richard Feyman (1918-1988), visitou o Brasil para investigar o nível de conhecimento dos alunos às vésperas do vestibular. Em livro, Feyman relatou que, entre estudantes do mundo inteiro, os brasileiros eram os que mais estudavam Física no Ensino Médio – e os que menos aprendiam a matéria.

Que não pairem dúvidas, porém, quanto à obrigação primeira da escola: ministrar um bom ensino curricular, preparando o aluno para os concursos e a vida profissional. Reduzir o programa em 20% a 30% não implica em abaixamento no nível de aprendizagem, pois constituem penduricalhos desnecessários.

Uma vez implementada a redução e um melhor detalhamento dos conteúdos, há espaço e tempo para o início de um ciclo virtuoso: ofertar aos alunos ensinamentos mais atraentes e edificantes. Exemplos? Oficinas (parte delas optativas) de Artes, Filosofia, Sociologia, leituras, educação ambiental e financeira, informática, valores, cidadania, etc. A atual geração dos jovens valoriza o lúdico, a multimídia, as práticas experimentais, a vivência dos fenômenos naturais e humanos, o diálogo entre as diversas disciplinas. Isto posto, estaremos mais próximos das palavras simples e plenamente inteligíveis do epistemologista suíço Jean Piaget: “Só se aprende o que tem sentido, o que é prazeroso”.

Jacir J. Venturi É diretor de escola e foi professor do Ensino Fundamental e Médio, de pré-vestibulares, da UFPR e PUCPR.

Jacir Venturi