© 1998-2019 por Jacir J Venturi. Todos os direitos reservados.

Artigos

E A MÃE NATUREZA SE VINGA

É insensato e paradoxal que nós, humanos, dotados de grande inteligência, sejamos os únicos a degradar o habitat em que vivemos. E em sua reação, a Natureza é, a um só tempo, nobre e rude. É agradecida com quem a trata bem, além de ser espontaneamente dadivosa, bela e vivificante. Porém, sabe ser pedagógica, ou até mesmo vingativa, aos 7,3 bilhões de terráqueos: “se persistirem em alterar o equilíbrio ambiental, eu os arruíno” – ela avisa.

Não há mais o benefício da dúvida. O ser humano é o principal indutor do aquecimento global, de secas, inundações, incêndios, furacões e do empobrecimento do solo. Essas catástrofes têm provocado perdas econômicas em escala sem precedentes, que começam a ser inseridas nos radares das grandes seguradoras e fundos de investimento.

O primeiro inventário de emissão de gases de efeito estufa, divulgado em novembro de 2014, demonstra que cada brasileiro é responsável pela produção de 12,2 toneladas de CO2 por ano, num crescendo de 7,8% ao ano, sendo a principal causa o consumo de combustíveis fósseis. “Sabemos acima de qualquer dúvida que nosso clima está mudando e se tornando mais extremo devido a atividades humanas como queima de combustíveis fósseis”, alerta Michel Jarraud, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial, diante do nível recorde de CO2 na atmosfera. Os efeitos reais são visíveis em todos os quadrantes da Terra, como o derretimento dos glaciares, a elevação do mar em 19 cm desde o início do século XX e o incremento da temperatura média, culminando com a última década mais quente desde 1850.

O desmatamento é a segunda causa de elevação dos níveis dos gases do efeito estufa. De acordo com a revista científica Science de 2014, desde 2008 o país perdeu 44.000 km² de áreas de conservação. De uma das biomassas de maior diversidade do mundo – a Mata Atlântica – restam apenas 7,3% da cobertura original.

No Brasil, as políticas equivocadas e com fins eleitoreiros do governo relegaram investimentos em energias renováveis como hidrelétrica, eólica, solar, biomassa e etanol. Ainda promove um despautério quando, por exemplo, onera toda a sociedade subsidiando a gasolina e o diesel e reduzindo o IPI dos automóveis.

A tibieza se desvela naquilo que diuturnamente está ao alcance de todos: apesar das campanhas nas escolas e na mídia, o índice de separação do lixo estacionou. Em contrapartida, cresce em 6,8% a produção anual de resíduos, que corresponde aproximadamente a 400 kg/ano por brasileiro.

Algumas cidades se deparam com um novo desafio: o subsídio ao lixo já é maior que o subsídio ao transporte coletivo. Especificamente em Curitiba, a prefeitura arrecada R$ 76 milhões e gasta R$ 160 milhões para prestar o serviço. Ademais não estamos desenvolvendo a cultura do consumo sustentável. Inúmeros penduricalhos, embalagens e sacolas são desnecessariamente ofertados pelas lojas e praças de alimentação dos shoppings, cujo destino é o aterro sanitário, onde 30% do que é enterrado seria reciclável.

Um estudo do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) estima que o ser humano ultrapassou em 20% os limites de exploração que o planeta pode suportar sem ser degradado. A Terra já não mais nos aguenta. É a marcha da insensatez do homem deletério, consumista e hedonista. Cálculos de alguns cientistas indicam que, se todo o bem-estar dos países desenvolvidos fosse universalizado, necessitaríamos de três Terras.

É preciso que deixemos de vislumbrar o aquecimento global como uma hipótese teórica e a sustentabilidade como um mero discurso politicamente correto. Afinal, a qualidade de vida que nossos filhos terão, daqui a 20 ou 50 anos, depende diretamente de como tratamos o planeta hoje. “A terra não nos pertence. Ela foi emprestada de nossos filhos”, se faz oportuno um cacique indígena americano, em frase proferida há mais de um século.


Jacir J. Venturi, presidente do Sinepe/PR, Coordenador da Universidade Positivo e autor de livros.

Jacir Venturi