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ENEM: SUGESTÕES QUE APRESENTAMOS AO INEP

No dia 07 de agosto, fomos recebidos em Brasília pelo Dr. Luiz Cláudio Costa, que no dia 07 de fevereiro deste ano assumiu a presidência do INEP – órgão do MEC responsável por toda a logística do ENEM -, que havia convidado a Presidente da Federação das Escolas Particulares - FENEP, Prof.ª Amábile Pacios, para apresentar uma avaliação do ENEM.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi uma reunião de boa receptividade e interlocução altamente técnica e concluímos enlevados de júbilo e esperança, uma vez que este é o 4.º presidente do INEP desde 2009. O Dr. Luiz Cláudio – ex-reitor da Universidade Federal de Viçosa (UFV), ex-secretário do Ensino Superior do MEC e doutor em Agrometeorologia (Inglaterra) – é um profissional qualificado, tanto por suas experiências administrativas quanto acadêmicas, e sendo professor da disciplina de Mudanças Climáticas está preparado – em tom de blague – para as intempéries e borrascas, pois este é um cargo de elevada relevância na República. Toda a sociedade anseia por um ENEM SEM PROBLEMAS, após as trapalhadas de 2009, 2010 e 2011, por motivos torpes, desonestidade de fraudadores e até onde a vista alcança, por incúria de uma parte dos gestores.

O ENEM, transformado em grandioso processo seletivo, deve também ter como objetivo balizar e nortear todo o Ensino Médio, onde estão as maiores mazelas no espectro da educação brasileira: apenas 47,7% dos jovens na faixa etária de 15 a 17 anos mantêm adequada a relação idade/série e 1,9 milhão destes jovens abandonam a escola em cada período letivo.

A pedido do presidente do Sinepe/PR, Prof. Ademar Batista Pereira, coordenamos uma equipe multidisciplinar de 11 professores, tendo como premissa básica serem educadores – sem qualquer interesse subjacente que não fosse o de contribuir por uma boa causa. Educadores caldeados na frágua da intensa convivência com alunos de escolas públicas e privadas, ademais vários são mestres, doutores e autores de material didático.

O documento apresentado ao INEP possui 38 páginas, com análise das quatro grandes áreas exigidas (Linguagens e Códigos, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas). O documento completo e a relação dos nomes da equipe multidisciplinar estão no site: www.sinepepr.org.br.

Quanto às sugestões apresentadas ao INEP, ei-las concisamente:

1) Há excesso de contextualização, o que alonga o enunciado e fica a sensação de um exame demasiadamente extenso. Na área de Ciências Exatas, em especial, há contextualizações forçadas e há demasia de aritmética (continhas), tangenciando apenas conteúdos mais profundos e de raciocínio lógico. Não se nega o escopo utilitário e prático de Matemática, Física e Química, no entanto, em todo o mundo, se valorizam seus bons fundamentos teóricos.

2) As 180 questões objetivas das quatro áreas do conhecimento valem apenas 50%. Na outra metade, reina absoluta a redação (30 linhas). Até hoje, nenhuma explicação para essa obesidade, ou seja, para esse peso excessivo. A sugestão da equipe multidisciplinar é que as quatro provas valham 20% cada uma e também à redação se atribua este valor.

O documento solicita que os critérios de avaliação sejam bem explicitados, com o escopo de bem orientar os candidatos e minimizar a judicialização. Para nosso gáudio, em 30 de julho, o INEP publicou o manual A Redação no Enem 2012, em uma demonstração de organização e transparência. Ademais, o INEP ampliou em 40% o número de corretores de redação, perfazendo 4,3 mil, que já estão sendo capacitados.

3) O conteúdo programático está genérico demais, merece ser mais bem descrito e enxuto. Há exemplos concretos no documento – e os técnicos do INEP têm muito mais competência do que nós – para melhor detalhar o programa com subitens bem especificados e não tão abrangentes. A grade curricular deve ser reduzida em 20% a 30%. São penduricalhos desnecessários. Nenhum educador sério pretende fazer com que o aluno do Ensino Médio estude menos, e sim, que empregue honestamente o seu tempo, preparando-se bem para as elevadas exigências futuras.

4) Tem-se como premissa que o tempo é insuficiente: 3 minutos, em média, para a resolução de cada questão. Julgamos que o número de 180 questões está adequado, pois diminuí-las compromete a abrangência e aumentar o tempo da prova levará o candidato à exaustão. A solução é reduzir parte dos enunciados desnecessariamente longuíssimos, e que o MEC assuma e divulgue amplamente que a administração do tempo é uma das habilidades exigidas.

5) Somos favoráveis à consolidação do ENEM e à adoção de um currículo unificado para o ingresso nas universidades, a exemplo do SAT americano e de dezenas de outros países. Ademais, a nota do ENEM representa um dos critérios para a concessão de bolsas de estudo do PROUNI, FIES e de certificação de alunos da EJA. Para este mister, que se contemplem doutores e mestres de nossas universidades, mas também professores do Ensino Médio, que diariamente honram o tablado de nossas salas de aula – os metros quadrados mais nobres da escola.

Obs.: outras sugestões foram apresentadas na reunião com o presidente do INEP e se encontram descritas no documento.

Ao término da reunião, o presidente do INEP anuiu que é necessário levar mais informações e melhor capacitar os professores das escolas, quando dei o meu depoimento – ao palestrar para 8 escolas públicas de periferia de Curitiba nas quais os alunos estão minimamente instruídos sobre o ENEM, PROUNI, FIES, COTAS, SISU, etc. E sempre receptivo às colaborações externas, convidou-nos a participar em Brasília, em 22 de agosto, de um encontro com os diretores executivos do College Board, fundado em 1900, que realiza o SAT (Scholastic Assessment Test), para o ingresso dos estudantes em praticamente todas as universidades americanas (são sete provas por ano).

A verba para a implementação de toda a logística do ENEM/2011 foi robusta, porém se justifica quando se almeja um ENEM SEM PROBLEMAS. Essa verba foi de R$ 372,5 milhões para atender 5,3 milhões de candidatos inscritos, o que perfaz R$ 70,28 de custo por aluno (similar ao custo dos vestibulares convencionais). Também em 2011, o INEP contratou uma empresa de gestão de risco, por R$ 5 milhões, para monitorar a complexa logística, da impressão à aplicação das provas.

Os erros do passado significaram um doloroso aprendizado. Uma boa expectativa perpassa em todos nós participantes deste encontro, que por ser o primeiro em toda a existência do INEP, já diz muito. A sensação é que o INEP está caminhando na direção certa. Há 5,8 milhões de candidatos inscritos para o ENEM/2012, que empunham a chama esplendorosa da esperança num futuro melhor, mas também carregam o fardo da incerteza e da insegurança. Assim, vamos compartilhar das palavras de Manoel Bandeira recorrente nos vestibulares: “Ah, como dói viver quando falta esperança”.

Jacir J. Venturi,  Vice-Presidente do Sinepe/PR

Jacir Venturi