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UM TIM-TIM À LEI SECA

Tolerância próxima de zero ao consumo de álcool para quem for dirigir? Aparentemente uma medida draconiana, mas que as trágicas estatísticas justificam. No Brasil, motoristas embriagados são responsáveis por cerca de 18 mil mortes por ano, 750 mil acidentes e R$ 11 milhões de prejuízos.

Com a vigência da Lei Seca, os resultados são alvissareiros: queda de 16% no número de mortos nas estradas federais, nos dez primeiros dias, comparado com o mesmo período do ano passado. Mesmo com poucos bafômetros disponíveis, os dados revelam que, em apenas dez dias, 80 vidas foram poupadas e R$50 milhões foram economizados. E não estamos considerando os mutilados e feridos.

Há 35 anos, convivo – como professor e diretor de escola – com os jovens. Cada vez mais, intensa e precocemente, são vítimas ativas ou passivas do álcool. É a tragédia anunciada que leva, juntamente com outras drogas, a mais profunda dor para o seio das famílias. Recente relatório divulgado pela ONU, mostra que o Brasil é o líder no incremento do consumo de cocaína, maconha e ecstasy.

A atual Lei Seca está entre as mais rígidas do mundo. Equipara-se à da Suécia e à da Noruega. Aqui reside o foco das controvérsias. A lei brasileira anterior permitia o equivalente em álcool a duas taças de vinho. Como é hoje na França. A Inglaterra, o Canadá e os Estados Unidos permitem até três taças. Lenientes, concessivos? Não. Além de serem extremamente severos com os infratores e de promoverem campanhas educativas, há fortes movimentos por maior rigidez na legislação.

Merecemos uma taça, mas infelizmente uma taça de chumbo: somos o país  com maior índice de acidentes de trânsito. Pela primeira vez, as projeções indicam que em breve haverá mais mortes causadas pelos veículos automotores do que por assassinos. Se somos implacáveis em cobrar das autoridades a redução da criminalidade, coerentemente temos que assumir a nossa responsabilidade na diminuição dos acidentes de trânsito.

Em Curitiba, recente levantamento feito pela Paraná Pesquisas – publicado pela Gazeta do Povo, em 6 de julho de 2008 – revela que 42% dos entrevistados admitem pegar no volante após beber.

Posições maniqueístas, extremadas ou moralistas a favor ou contra, em nada contribuem para a solução dessa carnificina em nossas ruas e estradas. As indústrias de bebidas gastam R$ 800 milhões por ano em campanhas publicitárias recheadas de modelos jovens, felizes e sensuais. Como se fazia com o cigarro. Há 20 anos, começaram as medidas antitabagistas e os resultados são significativos. O número de fumantes caiu de 32% para 18% da população.

Demandas judiciais, propinas, acrescidas de deficiências na fiscalização são os principais percalços. A legislação é o tiro de partida. Quanto à fita de chegada, depende da conscientização dos motoristas e do rigor das nossas autoridades na aplicação da lei.

Jacir J. Venturi É autor dos livros Da sabedoria clássica à popular, Álgebra Vetorial e Geometria Analítica e “Cônicas e Quádricas”.

Jacir Venturi