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FALTA DE TEMPO PARA EDUCAR

É muito bom ter as coisas que o dinheiro pode comprar, desde que não se abra mão das coisas que o dinheiro não pode comprar. “Brincar com a criança não é perder tempo, é ganhá-lo” – ensina o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade.

O que observo atualmente é que a dedicação excessiva ao trabalho muitas vezes está relacionada ao desejo de satisfazer as vontades do filho: eletrônicos de última geração, roupas e tênis de grife, brinquedos caros, bons restaurantes, viagens com todo o conforto, etc.

Prioriza-se ao filho aquilo que pai ou mãe não tiveram na infância. Mas lembremos que muitos momentos felizes vividos por nós foram de interação e simplicidade, como jogar bola, brincar com os amigos, subir em árvores, nadar no rio, andar a cavalo, pedalar a bicicleta, empinar pipa, correr de rolimã, dar banho no cachorro, cozinhar, ir ao cinema, ouvir histórias, ler, cantar, assobiar. Enfim, atividades que desenvolvem as faculdades psicomotoras, a sociabilização e a autonomia. 

Bem reconhecem as mães – em pesquisa publicada na revista Veja – que “brincar em parques e praças é a atividade que melhor proporciona a formação de vínculos com o filho”.

A paternidade responsável é uma missão e um dever a que não se pode furtar. Ah, como dói ver filhos órfãos de pais vivos. Sacrificar a vida pessoal em prol dos filhos faz-se necessário. Significa, sim, menos lazer, menos convivência com os amigos, menos academia. Mesmo cansado(a), pode-se ir além para cumprir o papel de pai ou mãe.

Na escola, mais amiúde, constato a presença de duas figuras que merecem a mais profunda admiração: a de pãe (pai + mãe) ou dos pavós (pais avós). Sim, sim, muito melhor do que a ausência deles. É tão relevante que a escola celebra, no final de julho, com certa pompa, o dia dos avós. Contudo, avós não são afeitos a limites e autoridade em relação ao neto, quesitos necessários para uma maior segurança quando chegar a vida adulta.

A nossa vida profissional, apesar de suas elevadas exigências, pode muito bem ser ajustada a uma vida particular equilibrada. Dosar o tempo é a excelsa sabedoria. Como em todo o processo educativo, há de prevalecer o bom senso. 

Mais cedo do que se pensa, os filhos compreenderão: a) a árdua luta dos pais pela sobrevivência profissional; b) o necessário cumprimento dos deveres no magno papel de provedores; c) que a dedicação ao trabalho é modelo de responsabilidade e fator de realização pessoal.

Nesse contexto, importa muito a qualidade do afeto, bem mais que a quantidade de tempo disponível ao filho. É preciso nutri-lo afetivamente. O abraço, o beijo, o aconchego, o diálogo adequado à idade, a imposição de limites, o acompanhamento do rendimento escolar, a presença nos momentos de lazer ou doença e a transmissão (pela palavra e pelo exemplo) de valores éticos e de cidadania podem ser praticados diariamente – com ênfase nos feriados e finais de semana – por pais que trabalham oito, nove ou dez horas por dia.

O consultor Gutemberg Macedo arremata com seu depoimento: “Conheço executivos bem-sucedidos que mantêm uma vida balanceada. São bons profissionalmente, bons maridos, bons pais, bons líderes e bons cidadãos. O segredo? Saber dividir, compartimentar esses diferentes papéis. É preciso parar para refletir com profundidade. A vida é uma bênção de Deus. Desequilibrá-la é destruí-la. E destruí-la é uma espécie de estupro da própria divindade”.

Jacir J. Venturi Diretor de escola e autor de livros. Foi professor da UFPR e PUCPR.

Jacir Venturi