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DROGAS: LUZ, MAIS LUZ!

Iniciamos este texto com uma metáfora: em 1833, Goethe, o maior literato alemão, já em seu leito de morte, pronunciou suas derradeiras palavras: Lich, mehr licht! Luz, mais luz!

Uma frase instigante, não apenas sob o aspecto histórico, mas, antes de tudo, sob um aspecto simbólico e atitudinal. Não há problema que se resolva, sem que projetemos alguma ou muita luz sobre ele. A droga ilícita é um limbo sombrio, enrustido, silente, mas com efeitos devastadores. Deve ser tratada como um problema policial, sim, mas também como um problema social e de saúde pública, a exemplo do câncer, álcool, tabaco, Aids, gripe A, e com intensa participação da comunidade científica e civil, da mídia e das escolas. 

Na década de 70 , o câncer era uma palavra maldita e impronunciável, e hoje o tema circula abertamente em qualquer ambiente, facilitando a prevenção e o diagnóstico.

Nos anos 80, “ser aidético era sinônimo de pederasta” (homossexual). Um conhecido meu, colecionador de namoradas, fazia chiste: “se eu morrer de Aids, divulgue que eu era hemofílico”. A hemofilia era a única justificativa ante a homossexualidade. Tabu, vergonha extrema e preconceito pairavam sobre os infectados, a ponto de serem segregados como os leprosos ─ hoje hansenianos ─ do evangelho. O HIV saiu do armário escuro, as causas da transmissão são amplamente conhecidas. Hoje bem aceita, a camisinha era, no passado, rejeitada sob o argumento de que ao transar com camisinha perdia-se a libido, tal qual chupar bala com papel.

Projetava-se uma pandemia, e, no entanto, o vírus navega em uma curva decrescente, com queda de 17% nos últimos 8 anos. Analogamente, embora não eivado de preconceito, o surto da gripe A se amainou quando todos os holofotes foram lançados sobre o problema e pela mudança de hábitos da população. 

Há 20 anos, começaram as medidas antitabagistas por causa dos malefícios à saúde, à estética pessoal, ao fumante passivo. Paulatinamente, desconstruiu-se o glamour. Ou, numa apropriada síntese da revista Veja: “No apogeu, era símbolo das mais instintivas ambições humanas: a riqueza, o poder, a beleza. No caso, virou câncer, dor e morte”. O descenso no número de fumantes foi de 32% para 17% da população brasileira, atingindo-se um dos mais baixos índices do mundo.O número de ex-fumantes(26 milhões) já supera o de fumantes(24,6milhões).

Mais um exemplo de que, no início do banimento do cigarro, o fogo gerou muito calor (embates), e na sequência muita luz. Atualmente, não há fumante que não se autopuna, e o seu remorso é maior que o prazer de suas baforadas. O tabaco é um vício poderoso. Deixá-lo ─ dizem ─ é mais difícil do que livrar-se do álcool, maconha ou cocaína. Dados recentes da Senad (Secretaria Nacional sobre Drogas) indicam que cerca de 12% da população brasileira tem algum tipo de dependência em álcool ou outras drogas e que geram comportamentos de risco ou violência.

Não se trata de advogar a total abstinência da bebida, pois todos sabem ─ evidentemente com temperança ─ dos benefícios da descontração e alegria de alguns copos de cerveja na companhia dos amigos ou do vinho na presença de quem se ama. Só para fazer blague: uma das maiores descobertas da ciência foi o resveratrol contido no vinho tinto, que é benéfico ao coração. Onde reside o problema? Evidentemente, há pessoas que não sabem beber, e “a diferença entre o veneno e o remédio é uma questão de dosagem”.

Em relação aos entorpecentes ilícitos, duas atitudes extremadas são comumente  manifestadas em relação ao usuário: como um delinquente ou então como um coitadinho. Nada pior. Nada de marginalização e tampouco de leniência ou lirismo, uma vez que o usuário é coautor dos delitos praticados pelos traficantes. Estamos iniciando mais uma década e vislumbro que poucos temas serão tão recorrentes, quanto o álcool, a maconha, a cocaína, o crack e os alucinógenos.

Com o intuito de tornar a maconha mais atraente, os traficantes investiram pesadamente no incremento da potência da cannabis, a ponto de seus malefícios estarem próximos aos de outras drogas com origem em plantas, como a cocaína e a heroína.

As drogas sintéticas ─ ecstasy e LSD ─ mais consumidas nas raves e na night podem ser facilmente adquiridas pela internet, nas baladas ou através dos colegas universitários. Ademais, alegando-se um suposto controle de qualidade na produção, fez-se com que o incremento de usuários aumentasse em 115%, desde 1990.

O crack provoca dependência quase instantânea, e seus efeitos são devastadores à saúde física, mental e moral. É apavorante o aumento no número de apreensões no Paraná: 1.110% nos últimos quatro anos.

Percorreu-se, e ainda se percorre, um espinhoso caminho na busca da redução dos danos causados pelo câncer, tabaco, Aids, gripe A e pelos preconceitos. Maior é o desafio no combate inclemente às drogas ilícitas, ao glamour e aos excessos da bebida. Cada problema com sua peculiaridade, sua fita métrica.

É imprescindível a intensa participação do governo, da comunidade científica e civil, da mídia e das escolas. Maior deve ser a energia nesse enfrentamento.Haja luz! Fiat lux, manifestou-se o Criador ante as trevas que cobriam a Terra.

Jacir J. Venturi é diretor de escola, vice presidente do Sinepe/PR, autor do livro “Da Sabedoria Clássica à Popular” e por 35 anos foi professor de escolas públicas e privadas .

Jacir Venturi