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O MORRO É DE SÃO PAULO, E EU MORRO É DE SAUDADES

Em comemoração aos 35 anos de casamento, minha mulher pediu Morro de São Paulo, ao sul de Salvador. A cada ano , ela sugere uma viagem. Concordo, revitaliza a convivência.

De carro são 139 km – via Itaparica e Valença – ou duas horas de catamarã. A nossa escolha foi alugar um Palio Weekend na capital baiana, pois seguiríamos viagem a Itacaré, Península de Maraú, Porto Seguro, Arraial d’Ajuda, Trancoso, etc., enfim, foram 1600 km de asfalto e 180 km de estrada de terra.

Chegamos a Morro de São Paulo de lancha e após o píer, subida íngreme. As malas foram de “táxi”. Como o automóvel é proibido na ilha, os “táxis” são carrinhos de construção, com concha de plástico para não enferrujar por causa da maresia e empurrados por lépidos nativos.

A bem da verdade estamos no único município brasileiro formado por um arquipélago, com 14700 moradores. São 26 ilhas, sendo apenas três habitadas: Cairu, sede da prefeitura e que segundo os guias locais foi fundada em 1501 por erráticos portugueses. Vale a visita ao Convento de Santo Antônio, em estilo barroco, construído pelos jesuítas no séc. XXVII. As outras duas ilhas habitadas são Boipeba e Tinharé, nesta o vilarejo do Morro de São Paulo. Tinharé foi fundada em 1531 por Martin Afonso e sempre fez parte da cobiça de holandeses, franceses e piratas, por sua posição estratégica. Temperatura agradabilíssima em julho, em média 26°C, ante os 31°C de janeiro. O índice pluviométrico é maior no inverno, porém chove pouco.

Nos meses de junho a agosto, Morro de São Paulo contrasta com a polifonia das línguas estrangeiras, “muvuca”, luaus e baladas do verão. Prevalece a serenidade, o enlevo e a cortesia dos serviços das pousadas, restaurantes e passeios, com redução de 30% a 50% nos preços. A sinergia é total com este habitat e sua gente. Nota-se um profícuo convênio entre a prefeitura e o SESC, na capacitação dos jovens na arte de bem informar e atender os turistas. Foi o que encontramos de melhor preparo, depois de percorrer de carro 1800 km pelo interior e litoral sul baianos. É angustiante constatar in loco a baixa escolaridade das crianças e adolescentes.

No final da tarde, perto da vila, recomenda-se o pôr do sol no Farol do Morro (construído em 1835), junto às ruínas de um presídio de 1630. Às deslumbrantes belezas naturais, antagoniza-se um fenômeno que já havia observado de longe, ainda na lancha: o desmoronamento de várias encostas, que formam imensas cicatrizes em meio à mata verde.

Após uma noite chuvosa, uma manhã de bom sol. O mais aprazível estava por vir: um passeio de barco a Boipeba, Cairu e que circunavega a ilha de Tinharé. As retinas jovens ou já cansadas se encantam pelo azul-turquesa das águas mornas e pelos coqueiros, dendezeiros, piaçabas, bromélias, orquídeas do campo, junto às praias de Moreré, Cueira e Tassimirim. Desérticas e idílicas e onde se degusta a melhor “moqueca de lagosta do mundo”, lagostas pescadas com singularidade pelo “Seu” Guido e preparadas no fogão à lenha, nas areias da orla e servida à sombra dos chapéus-de-sol. Solitariamente “Seu” Guido faz a pesca noturna tendo por guia um lampião e como instrumento apenas uma vara de 3 m com um polvo amarrado na ponta. Mas este é assunto para o próximo texto: Boipeba, um paraíso perto do inferno (clique aqui para ler)

Enfim, a dois, convivendo intensamente com a natureza e a população local, com sua empatia, é “só alegria, você está na Bahia”. E no início da viagem, quando minha mulher argumentou – mais uma lua de mel – fiz chiste: agora não é quando eu quero, mas quando ele quer!

Jacir J. Venturi é engenheiro, professor e autor de três livros: Da Filosofia Clássica à Popular (1ª ed.); Cônicas e Quádricas (5ª ed.); Álgebra Vetorial e Geometria Analítica (9ª ed.).

Jacir Venturi