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Bons propósitos para uma convivência feliz

Recentemente, meu filho mais novo pediu que eu proferisse alguns ensinamentos de vida, por ocasião da cerimônia de seu casamento. Mais especificamente, bons propósitos para praticar com sua então companheira desde o início do casamento, que se propõe a ser duradouro.

 

Eu não poderia me quedar a tão auspicioso convite, embora tomado por forte emoção. São 14 regrinhas de ouro para uma boa coabitação. Ei-las:

 

1) Manter sempre o propósito de crescerem juntos, de se moldarem para favorecer uma convivência feliz e saudável.

 

2) Estabelecer alguns projetos de vida em conjunto, sendo o principal deles construir uma boa escala de valores. É mais feliz o casal que desenvolve valores, virtudes, crenças e condutas em comum. Serão bons companheiros na velhice e, o mais importante, pais muito melhores, pois os ensinamentos e os modelos serão mais uniformes. Na vida, as negligências são até admissíveis, menos a de papel de pais, pois nada mais frustrante que filhos desencaminhados.

 

3) Coabitar é passar por fases de êxtase, alegrias, mas é também superar frustrações. É preciso lembrar sempre que há uma roseira em seu jardim: se há a beleza e o perfume das flores, também os espinhos que machucam. A poetisa Cora Coralina é que nos inspira com a sua alegoria: "quis um dia ser jardineira de um coração. Nasceram rosas, mas nos espinhos me feri".

 

4) O que compromete uma relação adulta não são as discordâncias, mas a indiferença, a falta de diálogo. A indiferença é a maior destruidora de afetos. E diálogo exige respeito, quer pelas palavras, quer pelas atitudes.

 

5) Uma relação afetiva será vitoriosa na medida do diálogo, da tolerância e das concessões mútuas. A tolerância no casamento não é fraqueza, é virtude – desde que praticada por ambos.

 

6) As discordâncias fazem parte do cotidiano de um casal – afinal são dois seres oriundos de históricos familiar e individual diferentes, e cada um vem com suas crenças e escala de valores. Mas que prevaleça a boa comunicação e a força dos argumentos.

 

7) Se um entra em crise, o outro deve se conter, manter o equilíbrio, pois muito danoso para a relação é quando simultaneamente os dois “surtam”. Neste mister, muito bem corroboram as palavras de Shakespeare: “a tragédia começa quando os dois acham que estão certos”.

 

8) O equilíbrio entre os sentimentos e a razão é a essência de uma vida de contentamento interior, o que requer disciplina pessoal, esforço e boas escolhas do nosso livre arbítrio. Temos dentro de nós dois cães que se litigam todos os dias: um representa a emoção e o outro, a razão. Qual dos dois vence a briga? Aquele ao qual damos mais comida, por isso os dois precisam ser alimentados com porções iguais.

 

9) Quais os dois principais erros de um casal?

1º) Focar nas falhas do outro, em vez das qualidades.

2º) Querer que o outro mude, se amolde aos seus desejos. As mudanças devem ocorrer, os ajustes são necessários, mas fruto do convencimento interno de cada um.

 

10) A pior solidão é a solidão de dois sobre o mesmo teto, e decorre da indiferença, da rotina em que um não se interessa pelo outro, nem há manifestação de sedução e libido.

 

11) Não guardar mágoas, cultivando a difícil arte de perdoar. Mágoa é deletéria, uma carga tóxica que infelicita e desencadeia doenças.

 

12) Quero lhes contar uma pequena história: na véspera do casamento do filho, o velho pai o chama e diz – amanhã você vai se casar, vai ter uma companheira, depois filhos que passarão a ser a prioridade em sua vida. Mais tarde, seus filhos farão exatamente o que você está fazendo comigo e que eu fiz com o seu avô. E o que será de você? Por isso, nunca se distancie dos amigos, dedique tempo a eles. É com eles que você vai rememorar boas histórias, dar gargalhadas gostosas, falar de política e futebol, contar seus segredos, frustrações e angústias.

 

13) Praticar solidariedade e ações comunitárias, gestos que levam dignidade e autoestima. O retorno é o prazer de ser útil, além de ser uma terapia gratificante. Belas e oportunas são as palavras de Dalai Lama: "A ajuda aos semelhantes nos traz sorte, amigos e alegria. Sem ajuda aos semelhantes acabaremos imensamente solitários".

 

14) Perseguir a trilha da espiritualização. Manter a fé no Deus criador, a inteligência infinita. Crer na força das preces, das boas energias e do pensamento positivo, que promovem curas e nos confortam nas horas de sofrimento. Manter a prática da caridade cristã, voluntária e sincera. E sobre isso, Madre Tereza de Calcutá tem autoridade para nos ensinar: "as mãos que ajudam são mais sagradas que os lábios que rezam".

 

São regras simples, mas que exigem persistente esforço para sua implementação contínua. Todavia, são esforços que se tornam prazerosos na medida em que gradualmente se colhem os frutos de um relacionamento feliz e duradouro.

 

Jacir J. Venturi, professor e diretor de escolas públicas e privadas, autor de 3 livros e pai de 3 filhos.

Jacir Venturi

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