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Misiones Paraguaias - é o que há de melhor das Missões Jesuíticas

Partimos de Posadas, na Argentina, em direção a Encarnación no Paraguai, depois de atravessar a majestosa ponte estaiada sobre o Rio Paraná. Conhecemos duas Misiones, ambas de grande simbologia: La Santísima Trinidad por ser a maior de toda a Bacia do Prata, com uma área de 13 hectares, que levou cerca de 61 anos para ser construída, chegando a abrigar cerca de 4.800 indígenas; a outra, denominada de Jesús de Tavarangue, por ter ficado inconclusa devido à expulsão dos jesuítas. A capacidade máxima de cada Misione foi estipulada pelos jesuítas em 5 mil pessoas, daí a necessidade de se iniciar essa nova edificação, a apenas 12 km de Trinidad.

Desde a primeira construção, iniciada em 1609, até a expulsão dos jesuítas em 1768, foram edificadas 30 Reduciones ou Misiones: 7 no Brasil, 8 no Paraguai e 15 na Argentina, com estimativas de que cerca de 100 mil indígenas tenham nelas habitado. Eram comunidades onde todos trabalhavam para o bem comum, cabendo aos sacerdotes (em geral 2 ou 3 em cada uma delas) a evangelização dos silvícolas. As normas dos costumes, a gradação dos castigos, as regras de convivência e as obrigações eram definidas pelos vários caciques em conjunto com os jesuítas. Era, assim, uma espécie de conselho, inclusive para as punições (havia até celas para eventuais prisioneiros, certamente mais como função pedagógica).

As crianças, a partir dos 7 anos, iam para o colégio onde aprendiam a ler e escrever em guarani (os jesuítas desenvolveram uma gramática, com o objetivo de unificar o idioma, pois eram vários os dialetos), também eram ensinadas a Matemática, a Religião, a História, as oficinas etc. A nossa guia, bem-falante e bem formada, nos informa que a língua guarani era bastante complexa, sem estrutura lógica. As famílias monogâmicas não faziam parte da cultura, porém foi uma imposição da religião católica, e habitavam um espaço pequeno, mas estavam protegidas, pois as paredes eram de pedras. 

As necessidades fisiológicas e os banhos eram feitos em um arroio próximo pois não havia banheiros. A horta, a produção de vestiário à base de algodão e os cuidados com os animais eram de responsabilidade compartilhada por homens, mulheres e crianças. Em Trinidad há registro de cerca de 20 mil animais entre aves, porcos, ovinos, equinos e bovinos.

Na construção das edificações de Trinidad trabalhavam diuturnamente cerca de mil homens, na arte de entalhar e erguer as pedras de arenito, elemento praticante único das edificações. Há muitas pedras de 2 a 3 toneladas, transportadas de pedreiras que ficavam a cerca de 700m. A maioria dos guaranis se sentia protegida e amparada nas Misiones, mas alguns não suportando as normas e voltavam à vida de liberdade nas selvas.  

A Plaza Mayor, grande área central, segue a arquitetura típica espanhola. Todas as construções ao redor da praça foram arquitetonicamente bem planejadas e em volta havia um conjunto de casas onde os índios viviam. Há registros que o projeto de Trinidad foi elaborado por engenheiros espanhóis e italianos.

As ruínas contam ainda com um campanário, cujos sinos se ouviam a 16 km de distância. Na igreja, o mais imponente é o seu púlpito, repleto de entalhes com simbolismos bíblicos. No centro da igreja há uma cripta subterrânea em pedras, onde eram sepultados os sacerdotes. Muitos desses corpos retornavam de navio para a sua terra natal, na Europa. Estas duas Misiones paraguaias – La Santísima Trinidad e Jesús de Tavarangue –, por sua representação, são Patrimônios Culturais da Humanidade, de acordo com a Unesco.

(Viagem maravilhosa com meus filhos Eduardo e Fábio e o amigo José Elias (de Foz do Iguaçu), em 04/07/22)

Jacir Venturi