CIGARRO: ALGUMAS PITADAS DE HUMOR
Jacir J. Venturi
Ao descrever as agruras dos primeiros meses em que deixou o tabaco, o escritor João Ubaldo Ribeiro deu seu depoimento à Revista Veja: “Desse jeito, na minha biografia estará escrito 'João Ubaldo Ribeiro, 55 anos, deixou tudo para se dedicar a largar do cigarro'”.
Quantas pessoas determinadas ou com mentes privilegiadas sucumbem, apesar do hercúleo esforço em largar o vício? “Parar de fumar é fácil. Já parei mais de 20 vezes” ― ironizava Winston Churchill, reconhecido como o maior líder do século XX.
Não há fumante que não se autopuna. O remorso dele é maior que os danos que causam suas baforadas. Sim, ele sabe que a melhor definição de cigarro é: fogo numa ponta e ele, o imbecil, na outra ponta. Sim, ele sabe que o cigarro lhe diz: hoje você me acende, amanhã eu te apago. Sabe, ainda, que beijar um fumante é como lamber um cinzeiro. Ele sabe que o cigarro não distrai. Destrói.
O tabaco é um vício poderoso. Deixá-lo ― dizem ― é mais difícil do que se livrar do álcool, maconha, cocaína. Contudo, como no término de um grande amor, fica um vazio. E se estabelece uma relação de saudade ou ojeriza. Nunca mais a fumacinha que lhe chega às narinas será indiferente.
Um amigo faz questão que conste em sua lápide: “Fulano de tal, ex-fumante”. Tento completar: ex-fumante, antes de morrer. Sim, meu vizinho de praia me pede emprestada a Gazeta do Povo para ver quem parou de fumar. E com um sorriso maroto abre a página do obituário.
Não mais tabagista, outro amigo costuma fazer troça: “Já esqueci a morte de minha mulher há dois anos; da minha mãe, há cinco anos, mas não esqueci o cigarro. E olha que parei de fumar há dez anos”.
Passei muitos anos convivendo com um ritual prosaico: às 10h da manhã, um café e umas pitadas de Charm; após o almoço, mais um café e um Charm; no jantar, uma taça de vinho e... Meu cardiologista fazia blague: “Três cigarros por dia? Você é o único paciente que sabe fumar. Mas está na idade de parar”.
Após definitivamente me separar dela ― a nicotina, pois se parece com a dor da perda da mulher que se amou ―, subjaz um desejo secreto: imitar a cena de um filme de bang- bang na qual o bandido sobe o cadafalso e o xerife faz a derradeira pergunta:
― Seu último desejo, senhor?
― Sim, um cigarro, por favor.
Nem que seja um Marlboro sem filtro.
Jacir J. Venturi, ex-fumante.
Quantas pessoas determinadas ou com mentes privilegiadas sucumbem, apesar do hercúleo esforço em largar o vício? “Parar de fumar é fácil. Já parei mais de 20 vezes” ― ironizava Winston Churchill, reconhecido como o maior líder do século XX.
Não há fumante que não se autopuna. O remorso dele é maior que os danos que causam suas baforadas. Sim, ele sabe que a melhor definição de cigarro é: fogo numa ponta e ele, o imbecil, na outra ponta. Sim, ele sabe que o cigarro lhe diz: hoje você me acende, amanhã eu te apago. Sabe, ainda, que beijar um fumante é como lamber um cinzeiro. Ele sabe que o cigarro não distrai. Destrói.
O tabaco é um vício poderoso. Deixá-lo ― dizem ― é mais difícil do que se livrar do álcool, maconha, cocaína. Contudo, como no término de um grande amor, fica um vazio. E se estabelece uma relação de saudade ou ojeriza. Nunca mais a fumacinha que lhe chega às narinas será indiferente.
Um amigo faz questão que conste em sua lápide: “Fulano de tal, ex-fumante”. Tento completar: ex-fumante, antes de morrer. Sim, meu vizinho de praia me pede emprestada a Gazeta do Povo para ver quem parou de fumar. E com um sorriso maroto abre a página do obituário.
Não mais tabagista, outro amigo costuma fazer troça: “Já esqueci a morte de minha mulher há dois anos; da minha mãe, há cinco anos, mas não esqueci o cigarro. E olha que parei de fumar há dez anos”.
Passei muitos anos convivendo com um ritual prosaico: às 10h da manhã, um café e umas pitadas de Charm; após o almoço, mais um café e um Charm; no jantar, uma taça de vinho e... Meu cardiologista fazia blague: “Três cigarros por dia? Você é o único paciente que sabe fumar. Mas está na idade de parar”.
Após definitivamente me separar dela ― a nicotina, pois se parece com a dor da perda da mulher que se amou ―, subjaz um desejo secreto: imitar a cena de um filme de bang- bang na qual o bandido sobe o cadafalso e o xerife faz a derradeira pergunta:
― Seu último desejo, senhor?
― Sim, um cigarro, por favor.
Nem que seja um Marlboro sem filtro.
Jacir J. Venturi, ex-fumante.